
Na contramão do pensamento de inúmeras pessoas, inclusive amigos meus, me atrevo a escrever sobre o Big Brother Brasil sem condenar o programa, seus diretores e a emissora. Há muito tempo que acredito que a televisão não é vanguarda de hábitos e comportamentos tidos, geralmente, como inadequados. As novelas, por exemplo, sempre acompanharam os tempos e se elas se mostram mais liberais em assuntos morais, é porque a própria sociedade passou a encarar as relações e comportamentos de forma diferenciada. Lembro que quando era adolescente, o namoro mostrado nas novelas não era sinônimo da existência de sexo entre o casal, pois a própria sociedade agia dessa forma, ou seja, a virgindade (sempre feminina, diga-se de passagem) ainda era algo a ser valorizado e, por conseqüência, o sexo era reservado apenas para depois do casamento. Se hoje a novela mostra que o sexo faz parte do namoro é porque a própria sociedade assim o entende. As novelas, ainda no exemplo, expressam massissamente o que já é aceito e praticado socialmente, no entanto, o fato de serem veiculadas num meio de comunicação abrangente acabam, daí sim, estimulando e conformando comportamentos.
Com o BBB acontece a mesma coisa. Quem se lembra dos primeiros programas deve notar que o físico bonito e sensual era estimulado, mas bem menos do que nos últimos programas, pois me parece que o estímulo visual e sexual que está presente em músicas, baladas, academias etc., passou como necessidade de mercado para o visual do BBB. De qualquer forma, eu encaro o programa como uma metáfora da sociedade aqui fora, onde se luta, e de forma desesperada com o passar do tempo, por um prêmio que garanta ao vencedor tanto uma estabilidade financeira, como uma projeção social. Na luta, inicialmente todos são amigos, pois é necessário conhecer cada oponente, se revelar um pouco esperando que o outro se revele mais ainda, especialmente suas fraquezas. Com o tempo, as pessoas vão se agrupando em torno de objetivos comuns (grupos que, aliás, sabiamente são estimulados pelos organizadores) e passam a se degladiar como hordas ordeiras, pois a violência não pode ser admitida (ainda!) em público. Quando o programa vai se afunilando a percepção é de que a solidão vai se tornando maior e a única forma de se manter vivo no jogo é focá-lo. No meio disso tudo, há os estravazamentos sentimentais, as formas de sanar as carências e, é claro, o exercício de domínio e status que daí advém.
O que se percebe, pelo menos eu percebo, é que as relações que começam necessariamente superficiais, continuam a ser com o passar do programa, pois todos sabem, especialmente os participantes, que se trata de um jogo que vale muito. Ou seja, não é diferente das várias sociedades das quais as pessoas fazem parte. Se há, e parece que sempre há, um poder em jogo, este passa a ser o fim, o objetivo, e os meios são apenas os meios...
Mas, como acontece com qualquer programa de televisão, a ficção também faz parte, e ela entra nos paredões, ou seja, nós os espectadores temos a chance de eliminar aqueles considerados chatos, mau-humorados, enganadores, aproveitadores etc. Basta para isso lembrar dos ganhadores do BBB: Kleber Bambam, Rodrigo Caubóy, Dhomini, Cida, Jean, Mara, Diego Alemão, Rafinha, Max, Marcelo Dourado, Maria Melilo e Fael. Todos eles bons moços, alguns ingênuos, alguns espertos na medida certa (sem prejudicar ninguém), alguns bonitos, mas todos bons sujeitos. Esta é a ficção, e aí acaba a metáfora. No fundo, como temos a oportunidade de interferir, especialmente no final, continuamos acreditando que os bons são os melhores e que eles merecem chegar ao prêmio...
Pena que a realidade é sempre mais imperfeita!!!!