quarta-feira, 20 de julho de 2016

50 anos!!!

UMA VIDA EM 12 ATOS NO PRETÉRITO PERFEITO


I - INFÂNCIA

Chorei!!!
Andei, corri, pulei, brinquei
Mudei (de cidade), estudei
Corri, pulei, brinquei, joguei, briguei, chorei 
Me encantei, me apaixonei, venci.

II - ADOLESCÊNCIA

Mudei (de casa)
Pulei, brinquei, joguei, briguei
Me assustei, me emocionei 
Mudei (de casa, de novo)
Estudei, aprontei, conheci
Assisiti (muito)
Brinquei (muito)
Joguei (muito)
Ganhei, perdi, beijei, sonhei.

III - JUVENTUDE

Trabalhei, me machuquei, entristeci, 
Rezei, me encontrei, participei
Cantei, ri, brinquei, me apaixonei 
Conheci, sonhei, liderei
Namorei, beijei, chorei
Trabalhei, estudei, li, sonhei.

IV - IGREJA

Mudei (de cidade), rezei, meditei, estudei
Militei, reuni, liderei, viajei
Conheci (pessoas e lugares), organizei, disputei
Entrei (em crise), me angustiei, amadureci
Sorri, brinquei, briguei, chorei
Depus, esclareci, senti medo, me fortaleci
Me apaixonei, militei, viajei
Mudei (de cidade), namorei, noivei, casei.

V - PROFESSOR

Ensinei, li, estudei, me tornei (professor)
Pesquisei, dissertei, me doutorei
Viajei, conheci, me diverti
Me apaixonei (pelos gregos)
Me apaixonei (pelos jesuitas)
Fiz (amigos), respeitei, imitei, lutei, desisti, resisti
Mudei, amadureci, farreei.

VI - ESPOSO E PAI

Casei, vivi, festei, viajei (muito), conheci (o exterior)
Me organizei, churrasqueei, reuni, comemorei
Discuti, emburrei, ri, compartilhei, me diverti
Adotei, fui (pai), me emocionei, me apaixonei
Curti, acompanhei, troquei (fraldas), banhei
Temi, chorei, ri, sorri, me encantei
Brinquei, cantei, assisti (animações), me realizei.

VII - AMIZADES

Conversei, escutei, me expus, me abri
Aconselhei, contei (piadas), discuti
Festei, bebi, encontrei, ri
Me embriaguei, me irritei, irritei, exclui
Churrasqueei, cantei, acrescentei, aplaudi.

VIII - FAMÍLIA(S)

Convivi, me alegrei, joguei, escutei
Me irritei, briguei, brinquei, 
Ri, chorei, falei, cuidei
Dormi, acordei, comi, bebi, me embriaguei
Me diverti, viajei, acompanhei, conciliei, ajudei.

IX - BOLA

Joguei, comemorei, me irritei, briguei 
Fiz (gols), festei, resenhei, ri
Participei, organizei, secretariei, me envolvi
Ajudei (a construir), fiz (muitos amigos)
Venci, perdi, empatei
Perdi (amigos), me desesperei, entristeci, chorei.

X - POLÍTICA

Participei, ocupei (cargos), coordenei
me candidatei, apoiei, servi, me envaideci
Ganhei, perdi, trabalhei
Liderei, vibrei, me entusiasmei 
Aprendi, me espelhei, respeitei.

XI - LEIP

Me reuni, estudei, pesquisei, criei
orientei, conversei, ouvi, aprendi
Festei, apresentei, coordenei, organizei
Ensinei, fiz (amigos), ri, sorri
Me realizei, vivi, intensifiquei.

XII - HOJE

Mudei (de casa), mudei (de vida)
Fiz (terapia), procurei (me encontrar)
Vivi (a crise), me angustiei, deprimi
Entristeci (a mim), entristeci (a outros), magoei
Mudei, decidi, fiz
Desafiei, caminhei, (quase) morri
vivi, e,

Continuo vivendo... 
Até aqui valeu a pena?
Sim, com certeza!
Aprendi as dores e as delícias 
De ser quem sou!
Até porque, minha alma nunca foi e nunca será pequena!!


(todos os verbos utilizados são relacionais, pois a vida só tem sentido quando é relacional)



quinta-feira, 7 de julho de 2016

Curso de Pedagogia EaD da UEM - hora de passar o bastão

(Aviso aos meus leitores que este post ficou bem maior do que o normal. Mas não poderia ser diferente, como poderão ver)



Depois de quase 8 anos a frente do curso de Pedagogia a distância da UEM chegou a hora de me afastar, pelo menos por um tempo... Iniciei minha função de gestor, na condição de coordenador do curso, em outubro de 2008, quando tivemos a primeira turma do convênio/modelo Universidade Aberta do Brasil (UAB). De 2008 a 2012 tive como coordenador ajunto/coordenador de tutoria o professor Carlos Alberto Mororó da Silva, o nosso saudoso Mororó. De 2012 até agora fui coordenador ajunto/coordenador de tutoria do professor Jorge Cantos. Mas, chega um momento em que é preciso oportunizar que outros tenham a mesma experiência que eu tive e enfrente, com peito aberto, os desafios desta recompensadora função.

Minha sincera avaliação desse tempo todo: absolutamente positiva!! Tivemos e temos seis turmas diferentes, que nós demos nomes para não confundirmos: turma 2009 (a primeira), turma 2010, turma Parfor, turma Vizivali (aliás, duas turmas), turma 2014 e turma 2015; ao todo, mais de cinco mil alunos que passaram ou estão passando pelas minhas "mãos virtuais". Quanta responsabilidade!! Quanta emoção!! Para além da rotina das turmas, o que, em si, já é muito trabalho, ousamos fazer três jornadas pedagógicas, três cursos de cinema e educação, implantamos o Processo de Avaliação Interna (que, depois, foi estendido para todos os cursos a distância da UEM), revimos a grade curricular do curso, aumentando o tempo para quatro anos e meio, com três cursos de aprofundamento básico; enfim, fizemos a nossa parte. Mas, não fizemos sozinhos, ao contrário, o projeto EaD é, necessariamente, coletivo e, se quisermos que dê certo, com responsabilidade e rigor acadêmicos, todos os atores têm que desempenhar seus papeis. E eu tive a sorte de contar com pessoas que fizeram seus papeis muito bem, as quais, passo a agradecer.

Primeira aos milhares de alunos e turmas passadas e atuais. Vocês são a razão da existência do curso! Vocês são a razão da UEM entrar neste projeto de EaD com toda a coragem e energia! Sei que não é fácil ser aluno desta modalidade, pois requer auto-disciplina, vontade acima da média, disposição e energia quase que solitárias. Mas vocês sabem, por outro lado, que vale a pena. Muitos de vocês, talvez a grande maioria, sabem que não teriam a oportunidade de fazer um curso sério como o nosso se nós não fôssemos até vocês em suas cidades e em suas casas. Valorizem sempre a oportunidade que tiveram e tenham orgulho do diploma que receberam ou vão receber.

Aos coordenadores de polo e seu pessoal administrativo. Obrigado pela parceria de sempre! Vocês têm muita responsabilidade no cotidiano do curso e, no diálogo constante, nas avaliações rotineiras, nas visitas que fizemos, tivemos a oportunidade de ter em vocês o compromisso necessário para que o projeto tivesse sucesso.

Aos tutores presenciais. Costumo dizer que os tutores presenciais são nossa extensão concreta junto aos alunos nos polos. Vocês que sempre tiveram a responsabilidade de auxiliar os alunos, de acompanhar de perto o seu desempenho, de incentiva-los a continuar seus estudos. A vocês, grandes parceiros, meus sinceros agradecimentos!

Ao pessoal do PET/Pedagogia/UEM. Pela parceria nas etapas do nosso curso de Cinema e Educação, obrigado! Foram três cursos, com dez etapas cada um, aos sábados pela manhã, em que, acima de tudo, nos emocionamos com os filmes e documentários que tanto ajudam a refletir sobre a Educação nos dias atuais.

A todos os funcionários do NEAD/UEM, especialmente sua diretora, a professora Maria Luisa, meu profundo respeito pela dedicação, trabalho cotidiano, ousadia e lutas, muitas lutas em favor da EaD da UEM! Costumo dizer que dos setores da UEM que eu conheço (e, com respeito a todos eles) o NEAD é o local em que todos, absolutamente todos, trabalham a todo vapor e, o mais especial, com alegria. Solange, Rose, José Luis, Erivelto, Jairo, Volpato e, especialmente, Maria Luisa, vocês são especiais, corajosos, ousados, e tenham certeza que sempre foram e serão fonte de inspiração para mim, na UEM  e na vida. Me desculpem aqueles que eu não citei o nome, mas saibam que todos vocês merecem meu respeito e admiração!

A todos os secretários que o curso teve, obrigado pela dedicação a um trabalho tão complexo, cheio de nuances administrativos e exigências formais. Nas pessoas do Caio e do Guilherme, atuais secretários, quero agradecer a todos e os outros que passaram pela secretaria todos esses anos e que sempre se dedicaram ao máximo. A todos o meu respeito!

Aos professores do curso que se dispuseram a trabalhar, mesmo que tal atividade não contasse em seus encargos didáticos (o que continua sendo um contra-senso na UEM), meus agradecimentos, pois sem o comprometimento de vocês, desde a organização dos livros didáticos e da redação dos capítulos, o curso jamais teria existido. Obrigado colegas e companheiros de trabalho!

Ao Marcos Pereira Coelho e à Giselma Serconek pelo trabalho incansável junto aos professores e alunos do curso. Vocês foram, por um bom período de tempo, meus braços esquerdo e direito, especialmente nas dependências e nos estágios do curso. Valeu!

Ao Mororó, para o qual já dediquei um post aqui no meu blog (clicando no nome dele acima abrirá um link para o post) somente quero reforçar o quanto aprendi com ele como pessoa. Sua humanidade, seu otimismo e seu desapego me fascinaram sempre!

Ao meu querido companheiro Jorge Cantos. O que falar de você além daquilo que você já sabe? Orgulho de estar ao seu lado nesse tempo todo (ah, não vá corrigir este texto, ok!). Parceiro, cúmplice, terminamos o que começamos, e sempre com nosso propósito inicial: "morremos abraçados, se for preciso". Não precisou. Vivemos intensamente; nos emocionamos; reclamamos; comemoramos; e, continuamos vivos para contar nossa história. Jorge, você é uma das almas mais privilegiadas que conheço. Obrigado por tê-la partilhado comigo!!

Aos tutores a distância, os quais deixei por último, pois concluo, depois de todos esses anos, que eles são os principais atores desta peça, desta novela que se chama vida. A vocês meu profundos agradecimentos pela parceria, pela cumplicidade, pela dedicação, pela paciência e, é claro, pelo árduo trabalho, nem sempre adequadamente recompensado do ponto de vista financeiro. Vocês são, de fato, professores, responsáveis pela mediação do processo ensino-aprendizagem. A organização dos cursos na modalidade EaD os chama de tutores, ótimo nome se considerarmos a etimologia da palavra: quem cuida, quem protege, quem zela pela sua formação integral de alguém. Portanto, tenham este significado como sinônimo, de fato, de sua função, pois ela é a mais essencial no formato de nosso curso. Aprendi muito com vocês e sei que, acima de tudo, o que fica para nós, e entre nós, é o carinho e o respeito mútuos!

Claro que nem tudo foi perfeito no curso. Erramos muito também. Eu errei muito nesse tempo todo. Deixei de cumprir certos protocolos, não fui exigente o suficiente e fui relapso em muitas coisas. Mas, sei, também, que meus acertos foram muitos também, e disso muito me orgulho. Meu trabalho sempre foi levar muito sério a EaD na UEM e fazer o que estivesse ao meu alcance para que nosso curso primasse, sempre, pela seriedade, pelo rigor e pelo compromisso com a universidade pública.

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena", como diz o poeta. A todos, alunos, tutores, professores que, como eu, teimaram em não apequenar a alma, esses anos todos valeram a pena. Ah, como valeram!!

À Elaine a à Ruth, que vão coordenar o curso de agora em diante, meus votos de sucesso e, especialmente, meu desejo que vocês experimentem um pouco de todas as boas sensações que eu experimentei. Que vocês possam, ao final de seu trabalho, afirmar como eu hoje: valeu a pena!!

Obrigado a todos!! E saibam que têm mim alguém que sempre vai se dedicar à EaD na UEM. Deixo a coordenação e volto a ser professor do curso de Pedagogia a distância da UEM. Volto com todo o entusiasmo que me é característico. Como sempre disse, vamos fazer nossa parte, vamos fazer a diferença, vamos fazer a história acontecer sempre!!!


terça-feira, 14 de junho de 2016

Black Mirror


Uma das séries mais sensacionais de todos os tempos!! É assim que eu (e muita gente) define a série inglesa Black Mirror. Ela é espetacular porque é, na verdade, assustadora, pois é uma visão nada romântica do que a tecnologia pode fazer com as pessoas. Ao assistir esta série me lembrei da primeira vez que assisti Blade Runner, o caçador de andróides, pois foi uma espécie de "ducha de água fria" na confiança num futuro sem problemas, em que a tecnologia iria resolver os problemas da humanidade.

Black Mirror é uma série que tem no Netflix (infelizmente não ganho dinheiro para fazer propaganda!!), foi produzida entre 2011 e 2014, tem 7 episódios espalhados por 3 temporadas. As histórias não são conectadas, com enredos e atores diferentes. O primeiro episódio é, no mínimo, corajoso, pois se trata de um sequestro de uma princesa inglesa e o resgate é que o primeiro-ministro inglês deve fazer sexo com uma porca na TV, ao vivo, em horário nobre. Mas, o que parece algo nojento é, na verdade, uma crítica ao mundo midiático. Crítica ácida, inesperada, chocante, com um simbolismo perturbante. Mas, de forma metafórica, é à realidade que se está referindo.

Os episódios seguintes retratam, primeiro a sociedade do espetáculo e o que as pessoas fazem para dela fazer parte e se destacar, e, depois, uma visão de um futuro próximo em que as pessoas colocam um chip atrás da orelha e podem assistir suas memórias a qualquer momento. Ambos episódios são igualmente chocantes, começam aparentemente despretensiosos, mas, depois escancaram onde as pessoas podem chegar para conseguir atingir seus propósitos. Novamente a tecnologia é apresentada de início como algo interessante, mas, depois, o uso que as pessoas dela fazem  a tornam uma verdadeira prisão.

A segunda temporada é, ainda, mais perturbadora. O primeiro episódio é sobre a volta de alguém que morreu; o segundo é sobre uma pena, uma punição, que se repete todo dia; a terceira é sobre a radicalidade e a boçalidade da propaganda. Em todos eles novamente está o uso da tecnologia como um espetáculo, individual ou coletivo, que expõe, na verdade, as mazelas, tanto individuais como sociais.

A última temporada tem apenas um episódio, que é, sem dúvida, o melhor de todos. Com 3 pequenas histórias conectadas, mostra até que ponto a tecnologia pode nos prender em um mundo a parte, sem conexão com as pessoas, com culpa e, especialmente, numa espécie de eterno retorno. O ultimo episódio leva o simbolismo, a metáfora da perda da identidade pessoal ao extremo.

A tecnologia em si, na minha opinião, nunca é problema. O uso que fazemos dela é a questão. O uso que já fazemos do face, do whatsApp e de outros aplicativos e redes sociais já indica que estamos cada vez mais solitários e sem conexão concreta e real com as pessoas. Black Mirror nos alerta que podemos nos afundar ainda mais na nossa desumanidade, demasiada humana!! É o encontro (ainda bem que virtual, pelo menos por enquanto) com um futuro que pode ser ainda mais individualista, egocêntrico e doente. Quem sabe não possamos refletir sobre isto e perceber que podemos construir um futuro mais decente!!

Para alento dos admiradores da série, há notícias de que a quarta temporada está sendo gravada, com 12 episódios. Já estou ansioso desde já...


terça-feira, 31 de maio de 2016

mulheres aladas


Ah, essas mulheres que têm asas!
São fortes, destemidas
São corajosas, valentes
Enfrentam os desafios,  jamais se entregam.

Ah, essas mulheres aladas!
Paradas não ficam
Dominadas não são
Medos não as paralisam
                   os enfrentam.

Ah, essas mulheres que têm asas!
Avançam sempre
Olhos adiante
Coração pulsante.

Ah, essas mulheres aladas!
Dominar não querem
Se expressar querem
Viver pedem
          intensamente

Subjugar essas mulheres aladas?
Jamais!
Dominar essas mulheres que têm asas?
Perda de tempo
Elas são assim:
Livres, decididas, amantes
Delicadas, firmes, independentes.

Mulheres assim são poucas
Por isso sofrem
Homens e outras mulheres
Invejosos de seus vôos
Querem cortar as suas asas
                        as asas da liberdade!!

Não se entreguem mulheres aladas!
Não se entreguem mulheres que têm asas!
Jamais desistam de ser quem são
Mostrem para todas
               para todos
Quem voa vê tudo sempre do alto!


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Death Note (Livro da Morte)


Death Note é um mangá que foi produzido como anime e que está disponível no Netflix. Resumidamente, a história é sobre um jovem japonês que, sem querer, pega um livro que caiu na terra por descuido de um Shinigami, um deus da morte. O livro tem a característica de levar à morte quem tem seu nome escrito nele. O jovem começou a escrever nomes de criminosos, primeiramente japoneses, depois do mundo todo, adotando o apelido de Kira. Personagens cativantes como L, N e o próprio jovem Ligth Yagami, o Kira, que começou a matar muita gente por ser o "dono" do livro, são o cerne de uma história profunda, enigmática, com um ótima lógica interna e, acima de tudo, que leva a pensar sobre o que o poder pode fazer com as pessoas. Enfim, recomendo o anime, pois é uma história com 37 episódios de 20 e poucos minutos cada um, em que não tem nada que sobra, onde tudo tem sua razão de ser.

O grande lance de Death Note é que o personagem que possui o livro sente um poder inusitado, um poder de acabar com toda violência do mundo, colocando os nomes de todos os criminosos, dos mais perigosos aos mais simplórios, acabando com todos. E, com todo este poder, Ligth Yagami passou a se sentir um deus, um deus que iria construir uma nova era, nova era em que ele seria o protetor dos fracos e desprotegidos e seria, é claro, idolatrado por todos. Como um deus, ele esperava o reconhecimento de todos, e muita gente passou a defender Kira como aquele que estava trazendo a paz para todos. No entanto, a polícia, ajudada por experts (L e depois N), passou 6 anos procurando por Kira para prendê-lo. A discussão social que está presente no anime é sobre se Kira, ao matar os criminosos, muitos que aguardavam julgamento e/ou que estavam cumprindo suas penas, também era um criminoso ou uma espécie de salvador da pátria. O anime mostra que muita gente o achava um herói, mas a polícia e parte da população o achava um assassino cruel. O problema é que Kira passou a matar não somente criminosos, mas, também, pessoas que estavam no seu caminho. Não vou aqui contar o final para não estragar a surpresa dos que sentirem com vontade de assistir o anime, pois a parte final do enredo é de tirar o fôlego.

Mas, sem contar o final, é possível fazer uma reflexão a partir do anime. A reflexão, é claro, é sobre o poder. Acho mesmo que o Death Note é uma grande metáfora sobre o uso do poder. No caso do anime se trata de um poder quase que absoluto de vida e morte das pessoas, mas, podemos pensar em qualquer forma de poder. É atribuída a Solón, legislador ateniense dos séculos VII e VI a.C., uma das frases mais significativas da história: "O poder revela o homem", ou seja, só conhecemos de fato as pessoas quando elas têm alguma função de poder sobre seus semelhantes, pois ela pode, se for sua índole recôndita, usar, abusar, instrumentalizar as pessoas. Penso no poder não somente no sentido de cargos de responsabilidade sobre pessoas, mas, também, no poder de uma pessoa sobre outra, pois numa relação amorosa, por exemplo, um pode exercer um poder sobre o outro, um pode dominar o outro, pode usar, abusar e instrumentalizar o outro em seu benefício próprio, e, neste caso, tal forma de poder pode se revelar pelo famoso "mi, mi, mi...", pelo ciúme, pelo drama etc. Quem usa o poder da forma como o Death Note mostra, e como metaforicamente estou tratando aqui, tende a se sentir uma espécie de "deus", que não pode se sentir contrariado, pois, afinal de contas, a relação que ele tem com o(s) outro(s) é sempre como se o(s) outro(s) fosse seu(s) subordinado(s), uma relação desigual, tida por ele como naturalmente desigual.

Para terminar:
- assinar o Netflix: R$20,00 por mês
- comprar uma TV bacana para assistir o Netflix: R$3.000,00
- ver um anime que sua filha indicou e assistir com ela todos os episódios, comentando, se angustiando, rindo... NÃO TEM PREÇO

Este post eu dedico, é claro, à SOFIA FURLAN COSTA, minha filha da qual tenho um baita orgulho!!!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Síndrome de Medusa







A história de Medusa é relativamente conhecida pelas pessoas em geral. Um breve resumo: ela era uma mulher extremamente bonita, virgem, que era sacerdotisa do templo de Atena e, portanto, deveria continuar com sua virgindade intacta; Poseidon, deus dos mares, um dia a possuiu contra sua vontade; Atena, a deusa, quando descobriu, ao invés de se vingar de Poseidon castigou Medusa transformando-a num ser abjeto, tenebroso, com cobras como cabelos e com o poder de transformar em pedra quem olhasse diretamente em seus olhos (para saber um pouco mais clique aqui). Penso que assim como outros tantos mitos gregos, este possibilita reflexões atuais, que eu, livremente, dou o nome de Síndrome de Medusa, e não tem a ver com a análise psicanalítica sobre a castração feminina e nem sobre cabelos quebradiços, mas tem a ver com uma ligação que quero fazer com a violência contra a mulher.

As mulheres que sofrem violência por parte de homens, especialmente física, como estupro por exemplo, têm sua vida marcada para sempre, pois elas acabam por carregar uma culpa que não deveria ser delas. Aqueles que estudam ou convivem com casos como esses sabem que a mulher estuprada sente vergonha pelo que aconteceu e geralmente têm dificuldade para falar sobre a violência que sofreram, sentindo-se, inclusive, intimidadas em denunciar seu agressor. E por que disso? A nossa sociedade é herdeira de uma cultura centrada no homem, uma sociedade que, no geral, acaba por culpar a mulher pela violência que sofreu. "Também, usando esta saia curta, queria o que?"; "Se usasse roupas mais apropriadas não seria violentada!"; "Quem mandou sair sozinha aquela hora!"; "Mulher que bebe como ela deveria saber que isto poderia ocorrer!". Estes são alguns poucos exemplos do que pessoas pensam (ou dizem!!) sobre os estupros que acontecem; ou seja, culpabilizam as próprias vítimas da violência. Por isso que as mulheres violentadas de alguma maneira se sentem culpadas, elas introjetam o que eu estou chamando de Síndrome de Medusa.

A Síndrome de Medusa leva as mulheres agredidas a achar que elas poderiam ter evitado a violência se elas tivessem "se comportado" adequadamente, ou seja, sendo "belas, recatadas e do lar". A Síndrome de Medusa leva as mulheres a baixar sua auto-estima no rodapé; leva as mulheres a se acharem feias, abjetas e, simbolicamente, monstruosas; se sentem não participando mais da sociedade, ou melhor, não merecendo fazer parte do convívio social. A violência sofrida pela mulher acarreta uma violência interna que se eterniza e que praticamente a impede de voltar a ser quem ela era, e isto pelo julgamento que dela é feito, e que ela sabe que as pessoas fazem. A própria Atena, uma deusa mulher, condenou Medusa ao suplício, a julgou como culpada pela violência de Poseidon.

Está na hora de encarar isto de frente para que não só a violência acabe, mas que a Síndrome de Medusa também desapareça. As mulheres precisam continuar mostrando sua força, precisam continuar a se empoderar e exigir respeito ao seu corpo, às suas roupas, à sua liberdade de saírem, de tomarem, se assim quiserem, suas bebidas, e não serem julgadas por isto. É necessário que as mulheres e aqueles que se sentem sensibilizados por esta situação enfrentem a cultura machista, centrada na figura masculina, que faz com que as mulheres violentadas continuem, elas próprias, a se violentarem quotidianamente, por se considerarem culpadas por aquilo que, de fato, não é sua culpa.



segunda-feira, 28 de março de 2016

Crise



Normalmente associamos crise a coisas ruins. Crise na economia, crise na política, crise na escola, crise psicológica, crise financeira, crise existencial... enfim, quase todas as vezes que nos referimos a crise é negativamente. Portanto, evitamos ao máximo entrar em uma crise. Não gostamos e não queremos ter crise e com ela conviver. Mas, a maioria das crises não são desejadas e nem provocadas intencionalmente, mesmo aquelas geradas por uma mente com problemas, pois as crises nunca são intencionais ou racionalmente planejadas. Ou seja, a crise vem sem ser convidada... No entanto, há crises que, na minha opinião, não devem ser evitadas, não devem ser cortadas. Devem, sim, ao contrário, ser vivenciadas, especialmente aquelas pessoais que nos levam a repensar nossas convicções.

A crise, quando é vivenciada e não silenciada, abre um caminho para o autoconhecimento. Caminho difícil, é verdade, com dores, sofrimento e angústia, mas um caminho que se abre e que deve ser trilhado. O problema é que não é um caminho curto, breve, pelo contrário, e isto, num mundo em que a gente quer resolver tudo rapidamente, só torna as coisas mais difíceis. A crise normalmente expõe aquilo que não queremos ver, que nos incomoda, que nos trás angústia, dúvidas e tristeza. Nós queremos sempre ser felizes, sempre nos realizar nas nossas relações, sejam pessoais ou profissionais, e estamos certos de queremos, de buscarmos isto; no entanto, há momentos em que é necessário pararmos um pouco e tentarmos ouvir o nosso íntimo. A crise pode ser justamente isto: a necessidade de ouvir atentamente nosso eu interior e avaliarmos a situação em nos encontramos.

A crise, assim, não deve ser evitada, não deve ser camuflada e não deve ser anestesiada. Deve, sim, na minha opinião, ser encarada. Depende como encaramos estes momentos difíceis, saímos mais inteiros, saímos mais nós mesmos. Pode ser uma caminhada lenta, cansativa, angustiante, mas, depois, o caminho se torna mais denso, mais confiável, porque nós nos tornamos mais fortalecidos. Se a crise vier vamos vivê-la, afinal, não é toa que os gregos, em sua sabedoria, cunharam a frase que foi eternizada por Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo"!, que é tão fácil de entender, mas tão difícil de realizar...



segunda-feira, 21 de março de 2016

A continuidade da discriminação da EaD na UEM


Estou há algum tempo sem escrever no meu blog, pois, como alguns amigos mais próximos devem saber, estou num momento de profundas reflexões pessoais e achei mais conveniente deixar um pouco de publicar minhas opiniões aqui. No entanto, um fato que tomei conhecimento ontem e confirmei hoje não poderia me fazer ficar calado, pois se trata de mais um golpe contra a Educação a Distância (EaD) da UEM, muito semelhante, ou talvez até pior,  ao que aconteceu há dois anos atrás quando da eleição para reitoria da UEM (para quem tiver curiosidade favor acessar o link Educação a Distância da UEM: momento de luto).

Desta vez se trata de uma outra eleição interna da UEM, para direção do CCH (Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes), centro que abriga três cursos na modalidade a distância (História, Letras e Pedagogia). A comissão eleitoral, designada pelas portarias 001 e 002/2016-CCH, decidiu, não sei se por unanimidade ou por maioria (o fato é que decidiu) que os alunos dos cursos da modalidade EaD terão, se assim o quiserem, que votar presencialmente no bloco H-12 do campus da UEM. O interessante é que a última eleição para os mesmos cargos, ocorrida em 2012, os alunos da EaD votaram eletronicamente. Até quando, sempre me pergunto, esta modalidade continuará sendo discriminada na UEM? São momentos como este, em que um poder está em jogo, que tal discriminação ocorre sempre. Por que? Será que o medo do voto dos nossos alunos é tão grande assim? Na eleição para reitor em 2014, se aos alunos da EaD tivesse sido dado o direito de votarem eletronicamente por computador (o que já havia ocorrido para a eleição de reitor em 2010), é muito provável que haveria mudança em uma das chapas que chegou ao segundo turno.

A questão institucional que fica é sobre a aceitação ou não, de fato, da EaD em nossa universidade. Os alunos, como todos sabem (e, reitero, todos sabem mesmo!!), fazem o curso onde melhor escolherem e têm no ambiente virtual de aprendizagem MOODLE sua "sala de aula"; eles vão aos polos de apoio presencial obrigatoriamente somente para fazer as provas e/ou para alguma atividade avaliativa; eles moram, em sua maioria, em cidades distantes (de 10 a 100 km) das cidades dos polos, pois, afinal, eles fazem um curso A DISTÂNCIA; eles são alunos regularmente matriculados na UEM, com RA e todos os direitos e obrigações que qualquer aluno tem; os cursos que eles fazem são lotados em seus respectivos departamentos, com professores coordenadores que, como tal, fazem parte dos conselhos CI-CCH e CEP-UEM; os alunos, como quaisquer outros, votam para os cargos eletivos na UEM. Assim, para que eles fossem estimulados (realmente estimulados!!) para participar da eleição para direção do CCH dever-se-ia reconhecer suas características próprias de alunos da modalidade EaD, por meio do voto eletrônico, o qual (insisto) já foi utilizado em várias eleições internas da UEM, inclusive para reitor e direção do CCH. Por que, então, determinar que eles devem votar PRESENCIALMENTE no campus da UEM? Alunos que moram a 30, 40, 50, 100, 200, 300, e até 500 Km de Maringá virão votar aqui? Claro que não!!

Diante de tal fato (absurdo em sua essência), podemos acreditar que acabou a discriminação da EaD na UEM? Infelizmente, friso bem, infelizmente, não!! Alguém já disse, acertadamente, que a melhor e mais apropriada forma de se praticar a igualdade, de se favorecer a isonomia, é tratar de forma diferente os diferentes, e não tratar de forma igual aqueles que não o são, pois assim só se favorece uma parte, a parte dos iguais. Continuaremos denunciando toda discriminação que nossos alunos da modalidade EaD sofrem, até porque, é a própria modalidade que se está atacando.

Ah sim, para terminar, lamento muito por aqueles que, num impulso político pragmático, festejaram, mesmo que discretamente, o alijamento ao voto que os alunos da EaD sofreram no CCH.





domingo, 27 de setembro de 2015

Sobre o tempo e os tempos


É muito comum a percepção de que nos últimos anos o tempo parece estar passando mais depressa do que antes. De fato parece mesmo, pois os dias, semanas, meses e anos parecem "voar". Pessoas com mais idade, que viveram nas décadas de 50 a 80 do século passado, são "prova viva" de que realmente o tempo parece estar passando mais depressa. No entanto, todos sabemos que o tempo em si continua o mesmo, pois um ano continua durando 365 dias, um dia continua durando 24 horas e assim por diante. Ou seja, a conclusão mais do que óbvia é que não é o tempo realmente que está passando mais depressa, mas a forma como nos relacionamos com ele é que sofreu e sofre mudanças. Não há um tempo, mas há tempos, pois ele, o tempo, tem um sentido humano, tem um sentido histórico, apesar de sua natureza.

Hoje em dia nossa relação com o tempo é quase neurótica, senão totalmente neurótica. Num mundo em que a comunicação a distância é absurdamente imediata não admitimos tempo entre o envio da mensagem e a sua resposta. Estamos numa época que nos massacra do ponto de vista da comunicação entre as pessoas, pois, depois do advento especialmente do whatsapp, sem falar do facebook e de outras redes sociais, a ansiedade na resposta a nossas mensagens é automática; se a pessoa demora 5 minutos para responder, uma série de sentimentos são mobilizados, todos potencializados pela ansiedade. Ficaram para a história outras formas de comunicação, como as cartas, os cartões-postais e, mais surpreendente, os e-mails, os quais, na minha opinião, estão fadados a se tornarem, em breve, "peças" de museu, lembranças de algumas pessoas. Não havia ansiedade relacionada a essas formas antigas de comunicação? Claro que sim, pois só quem escreveu uma carta de amor, colocou no correio e esperou a resposta que sabe a ansiedade sentida; no entanto, a ansiedade era de acordo com o tempo calculado para chegar a resposta e, portanto, não era imediata, não era absurdamente imediata como hoje em dia. Falando em carta, sempre me vem a mente as cartas jesuítas trocadas entre aqueles padres no século XVI: um deles mais famoso foi Francisco Xavier, que se tornou famoso como missionário no Oriente; ele morreu no início de dezembro de 1552 em Sanchoão, às portas da China; imediatamente foi escrita um carta com a triste notícia endereçada ao seu superior e amigo Inácio de Loyola que estava em Roma; o interessante, do ponto de vista da demora das cartas, é que existe uma carta de Loyola para Xavier escrita em maio de 1553; portanto, seis meses após a morte de Xavier, Loyola ainda não tinha recebido a notícia. Eram outros tempos e outra forma de se relacionar com o tempo.

Eu acho que um fato relevante para a mudança que se teve com relação à percepção da velocidade do tempo ocorreu com a popularização da televisão, pois, a partir daí, o tempo reservado a conversas na família e entre as famílias vizinhas passou a ser ocupado em frente à TV. A ansiedade gerada pelos próximos capítulos das novelas já deve ter alterado a percepção do tempo. E daí por diante, os meios de comunicação foram se tornando cada vez mais rápidos. Hoje o que representa a velocidade da comunicação e a intensidade da ansiedade, ansiedade que é responsável, um última análise, pela idéia de que o tempo passa mais rápido, é o whatsapp. Tal é a dependência deste meio que, em salas de aula, em palestras, em reuniões de grupos de estudo, em bares etc., cada vez mais as pessoas não conseguem ficar sem olhar seus celulares e, é claro, desviar sua atenção do professor, do palestrante, do assunto, da conversa etc. A neurose parece aumentar de forma implacável e a ansiedade, cada vez mais potencializada, faz com que não sintamos mais o tempo; assim, é claro, o tempo realmente parece passar mais rápido. É o nosso tempo, é a forma como nos relacionamos com ele que acelera. Talvez seja por isso que hoje em dia cada vez menos as pessoas querem usar o tempo para curar feridas, para fazer os seus lutos, para aprender com a vida. A vida é cada vez mais intensa, o tempo, ou o nosso tempo, corre junto, cada vez mais rápido...

Para terminar, quero deixar aqui duas breves citações de duas perspectivas de se relacionar com o tempo que gosto muito, uma de Eclesiastes e outra da Legião Urbana, que poderiam servir de antídoto contra a ansiedade e a neurose modernas:

"Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu:
tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se platou,
tempo de matar de tempo de curar,
tempo de chorar e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las,
tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir,
tempo de guardar e tempo de lançar fora,
tempo de rasgar e tempo de costurar,
tempo de calar e tempo de falar".
(Eclesiastes, 3:1-7)


"E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção"
(Há Tempos - Legião Urbana) 



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Salários de vereadores


Acho que a maioria das pessoas está acompanhando a verdadeira onda em cidades brasileiras para diminuir os salários dos vereadores. O movimento, que se espalha rapidamente, começou na cidade de Santo Antonio da Platina onde, após forte manifestação popular, os edis, além de não aumentarem os salários como pretendiam, acabaram por diminuí-los drasticamente, passando de pouco mais de 4 mil reais para menos de mil reais por mês. Pois bem, o que parece algo progressista, o que parece ser algo que mobiliza positivamente a população, é, na minha opinião, um engodo, um erro político muito grave. Vou tentar argumentar por que.

Primeiro, com salários bem baixos, a possibilidade da corrupção aumentar drasticamente é concreta. A menos que as pessoas acreditem em contas de fadas, a redução drástica dos salários não irá transformar os vereadores em cidadãos perfeitos e cumpridores de suas tarefas com abnegação. Continuaremos a eleger corruptos que se sentirão mais "livres" para se venderem, pois não terão nem a desculpa de que já ganham bem para o exercício do seu trabalho.

Outra questão diz respeito ao fato de que, com salários na casa dos mil reais, qual trabalhador que poderá se candidatar a vereador? Que pessoa da classe baixa ou da classe média baixa poderá se dar ao luxo de exercer, com decência, um mandato de vereador se terá que trabalhar 40, 50 ou 60 horas por semana? Somente empresários, profissionais liberais bem sucedidos é que poderão, de "forma abnegada" exercer um mandado. A representação dos trabalhadores vai diminuir drasticamente. Isto é bom para a democracia representativa? Acho que não.

Concordo, no entanto, que tem vereador ganhando muito Brasil afora. Salários que comparados, por exemplo, com os de professores municipais são descaradamente maiores. Há, sim, que se colocar um limite para os salários, limite que deveria ser o que impediria que a pessoa se torne um político profissional. O que importa, para mim, é que a reação das pessoas aos salários dos vereadores mostra a descrença quase generalizada em que os políticos caíram na atualidade. Eles deveriam pensar sobre isto, não só os vereadores, mas todos os políticos, pois a paciência das pessoas está acabando. Mas, infelizmente, a forma que a revolta da população assume é somente moralista, atacando o efeito mas não a causa.

Volto a insistir, como já o fiz aqui outras vezes, em que mais do que diminuir drasticamente os salários, nós deveríamos estar lutando para acabar com a reeleição dos vereadores, dos deputados e dos senadores. Aí sim, sem a possibilidade de se profissionalizar na política, os vereadores poderiam fazer jus a um salário digno de sua importante função.




sexta-feira, 10 de julho de 2015

SimplesMENTE


A vida flui, nunca e sempre é a mesma
Pessoas vem e vão, chegam, ficam e saem
Coisas mudam e coisas permanecem
Somos rompimento e continuidade


A vida é assim, nunca e sempre é a mesma
Chegamos perto, às vezes colamos
Nos afastamos, às vezes para bem longe
Agregamos e dispersamos, juntamos e espalhamos


A vida flui, sempre e irreversivelmente
Experimentamos, gostamos, ficamos e desistimos
Temos coragem para o novo e o velho nos mete medo
Temos medo do novo e coragem de o velho enfrentar


A vida é assim, sempre e irreversivelmente
Se nela prestamos atenção, ela nos cobra
Se a ela damos ouvidos, nos sussurra e nos grita
Se a levamos a sério, brincadeira viramos


A vida flui, sem métrica e sem lógica
A vida é assim, com lógica e com métrica
A vida é assim, ganhamos e perdemos
A vida fui, perdendo ou ganhando


Perder é irreversível
Ganhar, às vezes, é possível!!



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Reforma política para "inglês ver"

(Este artigo, de minha autoria,  foi publicado hoje, dia 17/06/2015, no jornal O Diário de Maringá, e aproveito para registrá-lo aqui no blog)


Neste espaço precioso quero refletir sobre dois pontos acerca do projeto de reforma política que está sendo debatido no Congresso Nacional. O primeiro é sobre o que já foi objeto de votação e o segundo é a reforma em si.

Os deputados já decidiram acerca do sistema político do "distritão", do fim da reeleição para o Executivo e financiamento privado das campanhas. Vou me ater aqui em relação ao fim da reeleição para os cargos executivos: parece-me que atendeu a uma realidade, pois as campanhas para um segundo mandato consecutivo resultou, em boa parte dos pleitos, em escaramuçar a realidade vivida no primeiro mandato, não assumindo os problemas, para que o segundo mandato fosse possível e até facilitado; as últimas eleições, no Brasil e no Paraná, provaram esta tese. No entanto, parece que nem entrou na pauta o final da reeleição para os cargos no Legislativo. Por que será? Seria esperar demais dos nossos nobres deputados e senadores "cortarem a própria carne"? Pelo jeito das coisas, parecem que sim.

Qual o argumento para acabar com a reeleição para o Executivo que não vale também para o Legislativo? Confesso que estou cansado de ver vereadores, deputados estaduais, federais e senadores com três, quatro, cinco ou mais mandatos consecutivos. Todos sabemos, ou talvez fingimos não saber, que quem já possui mandato tem muito mais chance de ser eleito novamente do que os outros, pois, seja qual cargo for, sempre tem a verba de representação que é utilizada para contratar pessoas, as quais, boa parte delas, já começam a trabalhar para a reeleição do seu patrão anos antes da eleição. Penso que, para soluções de continuidade, poderia ser permitido dois mandatos consecutivos apenas para o legislativo, menos para senador, pois 8 anos de mandato já é tempo suficiente; mais do que isto vira, de fato, profissão e não, como todos eles dizem quando são candidatos, um serviço para a comunidade.

Quanto ao aspecto geral da reforma política, o que me preocupa é que nossos congressistas não criaram mecanismos de efetiva participação popular. Parece que não interessa ouvir a sociedade, especialmente aquela que se organiza para além de partidos políticos, no que diz respeito ao o que ela entende e quer que seja, de fato, reformado em nosso sistema político. O professor da Universidade de São Paulo (USP), Massimo di Felice, defende a tese de que a democracia representativa é a grave crise da própria democracia, na medida em que a população em geral só participa da política quando vota nas eleições e, depois, deixa as decisões para os eleitos, se isentando de qualquer responsabilidade pelo que os eleitos fizerem. Basta fazer uma pesquisa com as pessoas se elas se lembram em quem votaram nas três últimas eleições. A maioria deve responder que não. O problema é que o desinteresse das pessoas em geral, possibilitada pela eleição de representantes, acaba sendo oportuna para os eleitos, os quais, com o argumento dos votos que receberam, não se sentem na obrigação de perguntar para a sociedade como deveriam votar e, especialmente, prestar contas de tempos em tempos de suas atividades políticas. É uma via de mão-dupla o desinteresse, que interessa muito mais aos detentores de mandatos que exercem seus cargos praticamente de forma imune.

Quanto ao título do artigo, a expressão "para inglês ver" surgiu na primeira metade do século 19 no Brasil quando a Inglaterra exigiu que se aprovassem por aqui leis que proibissem o tráfico de escravos. Como todos sabiam que as leis não sairiam do papel e, portanto, não seriam cumpridas, surgiu a expressão, tão infeliz quanto verdadeira!


sábado, 23 de maio de 2015

Bem x Mal - as crianças de ontem e as de hoje

"Como os tempos atuais são diferentes dos da minha infância". Pessoas na minha faixa etária dizem com freqüência esta frase, e eu, é claro, também o afirmo. Até porque é pura realidade e verdade. As brincadeiras são diferentes, a liberdade (ou a falta dela) é diferente, a inocência é mediatizada por outras coisas, enfim, a diferença realmente é muito grande. "Como a gente era mais feliz antes", "na minha época havia melhores valores", "hoje em dia está bem pior do que antes", são frases que também ouvimos muito por aí dos mais velhos, incluindo aí os acima de 40 anos. A percepção das gerações anteriores normalmente, arrisco a dizer que em toda a história, é a de que as geração posteriores estão vivendo de forma pior, mais despreparada, mais perniciosa, dentre outros adjetivos mais depreciativos. Acho que para algumas coisas sim, as gerações têm razão em seu julgamento das novas, mas, para outras, me parece que é puro lamento de quem vê a morte mais perto do que a vida. Mas o que isto tudo tem a ver com o título deste post? Eu quero refletir hoje sobre a percepção do bem e, especialmente, do mal, para as crianças de hoje e, é claro, pensar em como a minha geração foi formada neste aspecto.

Para falar da minha época vou relatar, com um pouco de receio, um fato acontecido comigo. Eu tinha 15 anos quando assisti ao filme O Exorcista, e foi com certeza um dos momentos da minha vida em que mais senti medo, a ponto de, com aquela idade, tomar a decisão vexatória de dormir no quarto de meus pais, além de, depois, no meu quarto, dormir com a Bíblia debaixo do travesseiro por mais de um mês. Depois de um tempo, alguns anos mais tarde para falar a verdade, eu refleti sobre o meu medo da época e conclui que se tratava de uma potencialização do temor do diabo quando ele possuiu a menina no filme, personificando, de certa forma, o mal, ou os seus efeitos. Na minha época de infância e adolescência tanto Deus como o diabo eram apresentados com tintas fortes, um como vigilante de tudo, especialmente das ditas "coisas ruins" que todo adolescente faz, e o outro como aquele que está esperando um deslize para se apossar da alma. O maniqueísmo, portanto, era extremamente forte, e a pedagogia do medo funcionava muito bem naquele ambiente religioso cristão. Tal concepção da existência de forças do bem e do mal perpassava as histórias infantis, nas quais sempre havia a personificação do bem (Cinderela, por exemplo) e a sua contrapartida do mal (Madrastra da Cinderela, no mesmo exemplo); aliás, praticamente todas as histórias infantis tinham o mesmo esquema psicológico e o final, a moral da história, teria que ser a vitória de quem era do bem contra quem representada ou personificava o mal. Assim, madrastas, bruxas, lobos, ogros, tinham, necessariamente, um final funesto, mas, para engrandecer o bem, eles existiam, eles estavam lá, prontos para "devorar" sua alma.

Hoje em dia, de alguns poucos anos para cá, talvez desde Deu a Louca na Chapeuzinho e Shrek, os filmes infantis ganharam uma outra tônica, um outro esquema psicológico e, consequentemente, viraram do avesso o maniqueísmo existente na mentalidade religiosa da sociedade. Talvez o filme que melhor expresse esta reviravolta foi Malévola, o mais recente desta onda de filmes que invertem os papeis e nos apresentam bruxas, lobos, ogros, madrastas que não são maus e até, pelo contrário, são divertidos, boas-praças e, portanto, adoráveis. O filme Malévola, na minha opinião, sintetiza muito bem tal inversão: aquela que sempre foi a fada má, a invejosa, a preterida, transformou-se na mulher exuberante, que amou e foi traída em seu amor, aquela que cuidou da princesa e lhe mostrou um mundo diferente, mais sensível, mais mágico, do que os frios muros do castelo. Como não ficar do lado da Malévola contra o rei oportunista? Estamos vivendo hoje um momento especial na formação de nossas crianças e adolescentes. Eles não estão mais sendo encerrados em esquemas quadrados, que anteriormente às coisas as definem para sempre; eles não estão mais sendo dicotomizados entre o bem e o mal, entre Deus e o demônio; eles têm mais liberdade para decidir as coisas e viver num mundo em que tudo é sempre mais complexo do que esquemas redutores; eles não têm que ficar mais na espreita de encontrar, "cara a cara", como uma imagem demoníaca, que serviu para criar boa parte do superego existente nas pessoas.

É claro que nem tudo são flores... Ter mais liberdade, não ter sido criado num esquema que reduzia, e portanto facilitava, a realidade a dois polos visíveis e palpáveis, trás muito mais responsabilidade de fazer as coisas certas. O bem e o mal existem, pois existem coisas boas e coisas ruins, atitudes boas e ações más, pessoas que fazem o bem e pessoas que fazem o mal, e, portanto, nosso mundo não está imune dos perigos, muito pelo contrário, eles estão aí cada vez mais próximos, pois os perigos são trazidos por gente de carne e osso, e não por espíritos atormentados e atormentadores. É preciso, mais do que nunca, aproveitar a liberdade psicológica e moral que as crianças estão tendo para conversar com elas, para dar o exemplo de que, fundamentalmente, quando se pensa no outro, no seu bem, quando se respeita o espaço do outro, o espaço público, quando se trata bem as pessoas, independente de sua condição social, aí sim estamos fazendo e ensinando a fazer o bem. O contrário disto, o egoísmo, os preconceitos de raça, credo, políticos, de gênero etc., estes sim, são as atuais personificações do mal. Ensinar a fazer o bem é, antes de tudo, dar o exemplo!!!

Ah, quanto ao filme O Exorcista, confesso, meio envergonhado, que nunca mais consegui assisti-lo, e este é um dos desafios que trago desde então para minha vida.