terça-feira, 18 de setembro de 2012
Sujeira...
A greve dos funcionários da UEM me levou, nos últimos dias, a uma reflexão que apesar de não ser nova, vem bem a calhar: trata-se da limpeza dos espaços públicos da nossa universidade. Não sei ao certo se por herança do trabalho escravo no Brasil ou pela cultura de que o que é público não é de ninguém, mas o fato é que corredores, salas de aula e, especialmente, banheiros da UEM têm muita sujeira. É impressionante o fato de que se entra numa sala de aula limpa e depois de 3 horas e meia ela está suja!!
Fico me perguntando, não hoje, mas há tempos, porque se suja uma sala de aula? Porque se joga papeis no chão, se entra com calçados sujos, se arrastam as carteiras e não as voltam ao lugar? Porque vemos tantos papeis e sujeira nos corredores? Porque vemos pedaços de papel higiênico e água no chão de nossos banheiros? A resposta me parece incrivelmente simples: porque tem alguém que vai limpar depois. Eu não me incomodo de sujar a sala de aula, o corredor e o banheiro porque tem a pessoa da zeladoria que vai limpar; afinal, não é o serviço dela mesmo?? Eu sujo porque tenho uma empregada que limpa. Me pergunto adicionalmente: em casa é a mesma coisa??
Me lembro a primeira vez que andei de metrô em São Paulo e fiquei impressionado com a limpeza nas estações e nos trens (o que ocorre até hoje, diga-se de passagem...) e um colega paulistano me disse que a lógica era manter sempre o local limpo, pois isso acarretava um efeito psicológico nas pessoas de não ser a primeira a sujar. Será que uma lógica dessa não poderia ser aplicada nos espaços públicos? Se conseguíssemos deixá-los sempre limpos e asseados isso não controlaria a pulsão das pessoas em sujar ainda mais o ambiente em que se trabalha e estuda??
Será que podemos confiar em algo assim? Será que ainda resta otimismo suficiente para que as pessoas mudem certos hábitos em prol do coletivo e da preservação do que é público? Será que tais reflexões encontram eco não apenas em concordância com a tese, mas, efetivamente, em colaborar com ambientes mais limpos?
Sinceramente, não sei... (ando meio pessimista ultimamente) só sei que vou tentar fazer minha parte... vou me auto-vigiar , mas poupar meu estômago de cuidar dos outros...
domingo, 26 de agosto de 2012
Pequenas ditaduras na democracia
Bem, sei que vou mexer num vespeiro, que talvez seja incompreendido e receba muitas críticas, mas me sinto com liberdade suficiente para expressar minha opinião. Tem um tipo de postagem no facebook que anda me irritando e preocupando profundamente: "se você é a favor de acabar com o sofrimento dos animais compartilhe", "se você tem orgulho de ter amigos negros compartilhe", "se você tem orgulho de ter amigos homossexuais compartilhe", "se você ama sua mãe e sua família compartilhe"... e coisas que o valha... Fico me perguntando (1) se as pessoas que postam estas coisas estão entendendo que se seu "amigo" do face não partilhar, ele não concorda com aquilo?, e (2) há uma espécie de tentativa de patrulhamento ideológico daquilo que se pretende ser o pensamento mais avançado?
Acho que reside aí, para mim, o grande problema. O chamado multiculturalismo, na atualidade, criou versões que pretendem ser as ideologicamente mais revolucionárias, como, por exemplo, a defesa da igualdade de gênero, igualdade de raça, e a mais radical de todas, a concepção de que os animais são iguais (ou superiores!!) aos homens e que, portanto, comer defuntos de animais é uma atitude condenável. Defender tais visões de mundo, tais ideologias, para mim não é problema, e, em muitos casos são socialmente úteis. O problema, acho, é que tais concepções passam a ser a tônica da atualidade, passam a ser o crivo para julgar quem é avançado e quem é conservador, quem deve ser salvo e quem deve ser condenado. Pensar uma sociedade qualitativamente diferente, que supere a atual, não passa mais por uma discussão de classes, de apropriação coletiva de certos meios de produção, mas passa, agora, pela militância ambiental, de gênero e de raça.
O facebook parece ser, em parte, expressão da tônica atual, pois quando se colocam as coisas de maneira que quem não partilha das mesmas opiniões decididamente é tido como conservador, reacionário, e se pede ainda para quem for favorável compartilhar a mensagem, me parece que acaba resultando num verdadeiro e deplorável patrulhamento ideológico. Daí parece que estamos a um pequeno passo de uma ditadura do que se considera a verdade, ditadura do que se considera o bom, pois aquele que discorda está do lado da mentira e do mal. Assim como parece que estamos no tempo da ditadura da felicidade, podemos estar, também, no tempo da ditadura do que se considera multicultural.
Defendo, de forma intransigente, a opinião das pessoas, mesmo que contrárias às minhas. Condeno, igualmente de forma intransigente, qualquer forma de violência real ou simbólica, condeno qualquer forma de buling e qualquer forma de fundamentalismo radical. Tenho amigos gays, tenho amigos negros, mas não se tornaram meus amigos pela sua cor ou pela sua opção sexual, mas sim pelas pessoas humanamente atraentes que são...
Ah, (1) amo minha mãe e minha família, mas não vejo necessidade de, por isso, tornar público algo que, para mim, já é público...
Ah, (2) não sou e nem pretendo ser vegetariano e, por favor, não me sinto menos humano por isso...
sábado, 18 de agosto de 2012
Bolívia
Acho que passei pela experiência de um verdadeiro choque cultural em menos de um mês: depois de conhecer Portugal, fui para a Bolívia, no interior, na região dos povos chiquitanos. Não vou mentir aqui afirmando, demagogicamente, que as experiências foram as mesmas e os sentimentos iguais. Por vários motivos, pessoais e de trabalho, Portugal me proporcionou muito mais emoções positivas do que a Bolívia, no entanto, não é possível viajar para lá sem escrever sobre esta verdadeira aventura.
Eu e o Nando (e eu acho que a grande maioria dos participantes do congresso) fomos meio que precavidos de que coisas estranhas poderiam acontecer, viajamos com a consciência de que poderíamos provar coisas inusitadas e, portanto, acabamos por preparar nossos espíritos para encarar tudo da forma mais normal e esperada possível. E acho que conseguimos, tanto é que somente depois da viagem é que apresentei alguns problemas de saúde, talvez relacionados à minha estadia por aquelas paragens.
A impressão que se tem é que se trata de um volta ao passado num ambiente de filme mexicano antigo: estradas e ruas sem asfalto; comidas, incluindo carnes, expostas ao tempo nos mercados; baixas condições de saneamento básico; motos circulando com uma, duas ou mais pessoas, inclusive crianças e bebês, todas sem capacete; ônibus (todos brasileiros aliás) sem banheiro e sem ar-condicionado e em condições mecânicas sofríveis, que levou a uma parada não solicitada de três horas à beira de uma estrada poeirenta; desorganização no evento com os CD dos anais e os certificados de apresentação de trabalhos; enfim, coisas para as quais, como já informei, estava com o espírito preparado e, portanto, encarei da melhor forma possível, sem stress.
Por outro lado, seria muito injusto com os bolivianos que nos receberam tão bem destacar somente o exótico da viagem. As pessoas são muito amáveis e bonitas; a cultura chiquitana é preservada e os descendentes das etnias são incentivados a cultivar a arte da música, do canto e do teatro; as igrejas das antigas missões jesuíticas muito bem preservadas, com altares barrocos magníficos; uma apresentação de música barroca de tirar o fôlego; apesar dos motociclistas e passageiros sem capacete, não vi nenhum acidente; hoteis com uma boa infraestrutura; comida em abundância e variada. Enfim, coisas boas que compensaram os previsíveis imprevistos.
Valeu a pena conhecer o interior da Bolívia. Muita coisa naquele país continua desconhecida, especialmente os lugares do altiplano (La Paz, Lago Chichicada, Salar de Uyuni etc.), mas estes lugares são, por excelência, turísticos, o que ainda não é o caso da região de Chiquitos, cujo único turismo é o cultural...
Eu e o Nando (e eu acho que a grande maioria dos participantes do congresso) fomos meio que precavidos de que coisas estranhas poderiam acontecer, viajamos com a consciência de que poderíamos provar coisas inusitadas e, portanto, acabamos por preparar nossos espíritos para encarar tudo da forma mais normal e esperada possível. E acho que conseguimos, tanto é que somente depois da viagem é que apresentei alguns problemas de saúde, talvez relacionados à minha estadia por aquelas paragens.
A impressão que se tem é que se trata de um volta ao passado num ambiente de filme mexicano antigo: estradas e ruas sem asfalto; comidas, incluindo carnes, expostas ao tempo nos mercados; baixas condições de saneamento básico; motos circulando com uma, duas ou mais pessoas, inclusive crianças e bebês, todas sem capacete; ônibus (todos brasileiros aliás) sem banheiro e sem ar-condicionado e em condições mecânicas sofríveis, que levou a uma parada não solicitada de três horas à beira de uma estrada poeirenta; desorganização no evento com os CD dos anais e os certificados de apresentação de trabalhos; enfim, coisas para as quais, como já informei, estava com o espírito preparado e, portanto, encarei da melhor forma possível, sem stress.
Por outro lado, seria muito injusto com os bolivianos que nos receberam tão bem destacar somente o exótico da viagem. As pessoas são muito amáveis e bonitas; a cultura chiquitana é preservada e os descendentes das etnias são incentivados a cultivar a arte da música, do canto e do teatro; as igrejas das antigas missões jesuíticas muito bem preservadas, com altares barrocos magníficos; uma apresentação de música barroca de tirar o fôlego; apesar dos motociclistas e passageiros sem capacete, não vi nenhum acidente; hoteis com uma boa infraestrutura; comida em abundância e variada. Enfim, coisas boas que compensaram os previsíveis imprevistos.
Valeu a pena conhecer o interior da Bolívia. Muita coisa naquele país continua desconhecida, especialmente os lugares do altiplano (La Paz, Lago Chichicada, Salar de Uyuni etc.), mas estes lugares são, por excelência, turísticos, o que ainda não é o caso da região de Chiquitos, cujo único turismo é o cultural...
domingo, 29 de julho de 2012
Autismos
Segundo a definição do site Ciências Médicas, o autismo é definido como "uma perturbação psicológica grave caracterizada pelo facto de toda a vivência do indivíduo estar centrada nele mesmo, apresentando uma indiferença aparente para com a realidade que o rodeia, observando-se com maior frequência em crianças com idade inferior a três anos de idade." Mas, não é sobre o autismo como doença que quero tratar aqui, mas do autismo que chamo de simbólico e, portanto, de vários tipos de autismos. Dentre eles quero destacar o político, o intelectual e o emocional.
O autismo intelectual é, creio, uma das propriedades
do arrogante intelectual. Este tipo de pessoa só se interessa, na verdade, por
aquelas coisas que a ele dizem respeito e, especialmente, pelos elogios que lhe
fazem. As críticas são avaliadas como coisas de gente inferior que não está no
mesmo patamar dele, aliás, a rigor, ninguém está no seu patamar e, por isso,
também cria um mundo só para si, em que ele consegue interagir de igual para
igual apenas com seu próprio ego. Um profissional da educação com tais
características é, arrisco novamente a afirmar, algo tremendamente pernicioso.
E o autismo emocional é característico da pessoa que
não consegue perceber que a relação por ela vivida com outra pessoa só faz
sentido para ela mesma, não importando, de fato, se a outra pessoa está
presente de corpo e alma na relação. Para o autista emocional o seu amor é
suficiente para os dois e, portanto, a relação deve continuar, a qualquer
custo. Há, nesta forma de autismo, uma relação de poder e de submissão ao mesmo
tempo, por mais contraditório que possa parecer. A crise para o autista
emocional é sempre superável pois, de fato, ela nem existe, pois a realidade que
importa é somente aquela criada pela pessoa.
O autismo, como fenômeno biológico, é uma doença
visível, que requer enorme cuidado e atenção por parte de pais e de
profissionais. Já os autismos simbólicos são mais difíceis de se detectar e,
portanto, muito mais complicados de se tratar, pois eles vêm travestidos, em
muitos casos, como "atenção", "competência",
"amor" e "dedicação". Engodos difíceis de enfrentar...
domingo, 22 de julho de 2012
HOSTEL
(Este post é dedicado à Ariele, à Luciana, à Raquel e ao Gilmar, companheiros maravilhosos de viagem...)
Quando planejávamos nossa viagem para Portugal eu deixei por conta dos "meninos" a escolha e reserva dos hotéis em Lisboa e Coimbra. Me comunicaram, depois, que em Lisboa ficaríamos em hostels (para quem não sabe, é o nome moderno para os antigos albergues da juventude). Confesso, só agora, que fiquei um tanto preocupado... Me imaginei num quarto com mais quatro ou cinco pessoas, usando banheiro coletivo, com as manias que cultivei ao longo de 45 anos de vida, com meus hábitos pontuais, e confesso que fiquei quase apavorado. Mas, como havia me comprometido com eles, resolvi entrar no clima e, partilho agora, foi muito legal a experiência.
É preciso saber viver em coletividade, cujas condições são favoráveis muito mais aos jovens. Aliás, me senti sempre o tiosão da parada nos hostels, pois a média de idade me pareceu em torno dos vinte anos. Mas, como já afirmei, foi uma experiência muito interessante. Alguns requisitos se tornaram necessários: cumplicidade, respeito, nenhuma vaidade, mínimo de organização, dentre outros. Não sei ao certo se o fato de ficarmos juntos nos hostels favoreceu a nossa convivência ou se a nossa convivência fraternal favoreceu o clima legal nos hostels, mas o fato é que não tivemos um problema sequer, e olha que estávamos em cinco, o que, por si só, já é digno de nota.
O fato de ficarmos juntos quase o tempo todo, com exceção feita ao hotel (tenebroso!!) em Coimbra, contribuiu para que ficássemos mais ligados, e, sem dúvida, os hostels contribuíram para isto. O respeito e a dedicação que temos reciprocamente entre nós só fez aumentar e, para além dos elos acadêmicos que nos ligam, o que foi reforçada com liames muito especiais de carinho foi nossa amizade.
Obrigado a vocês, meus alunos, orientandos e, acima de tudo, amigos, por me propiciarem uma experiência que eu, no algo dos meus 46 anos, pensei que não desfrutaria mais. Valeu!!!
Quando planejávamos nossa viagem para Portugal eu deixei por conta dos "meninos" a escolha e reserva dos hotéis em Lisboa e Coimbra. Me comunicaram, depois, que em Lisboa ficaríamos em hostels (para quem não sabe, é o nome moderno para os antigos albergues da juventude). Confesso, só agora, que fiquei um tanto preocupado... Me imaginei num quarto com mais quatro ou cinco pessoas, usando banheiro coletivo, com as manias que cultivei ao longo de 45 anos de vida, com meus hábitos pontuais, e confesso que fiquei quase apavorado. Mas, como havia me comprometido com eles, resolvi entrar no clima e, partilho agora, foi muito legal a experiência.
É preciso saber viver em coletividade, cujas condições são favoráveis muito mais aos jovens. Aliás, me senti sempre o tiosão da parada nos hostels, pois a média de idade me pareceu em torno dos vinte anos. Mas, como já afirmei, foi uma experiência muito interessante. Alguns requisitos se tornaram necessários: cumplicidade, respeito, nenhuma vaidade, mínimo de organização, dentre outros. Não sei ao certo se o fato de ficarmos juntos nos hostels favoreceu a nossa convivência ou se a nossa convivência fraternal favoreceu o clima legal nos hostels, mas o fato é que não tivemos um problema sequer, e olha que estávamos em cinco, o que, por si só, já é digno de nota.
O fato de ficarmos juntos quase o tempo todo, com exceção feita ao hotel (tenebroso!!) em Coimbra, contribuiu para que ficássemos mais ligados, e, sem dúvida, os hostels contribuíram para isto. O respeito e a dedicação que temos reciprocamente entre nós só fez aumentar e, para além dos elos acadêmicos que nos ligam, o que foi reforçada com liames muito especiais de carinho foi nossa amizade.
Obrigado a vocês, meus alunos, orientandos e, acima de tudo, amigos, por me propiciarem uma experiência que eu, no algo dos meus 46 anos, pensei que não desfrutaria mais. Valeu!!!
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Portugal
Emoção. Talvez esta seja a palavra que melhor defina minha viagem para Portugal... Estudo a sociedade lusitana dos séculos XVI, XVII e XVIII desde 2001 e só agora tive a oportunidade de conhecer a Terrinha. De certa forma, foi como se já conhecesse muita coisa pessoalmente, de tanto ler sobre, de tanto ver imagens e de tanto acompanhar a "fala" de importantes atores históricos. Lisboa, Sintra e Coimbra me pareceram tão próximas, tão estranhamente próximas, que parece que eu, na verdade, revi muita coisa, ao invés de ver pela primeira vez...
Uma das primeira imagens foi a do Rio Tejo, tão importante para nós brasileiros como a costa baiana, pois se na segunda os portugueses aqui chegaram pela primeira vez, do primeiro eles partiram. Tentei imaginar as naus e caravelas lusitanas zarpando do Tejo para aventura por terras d'além mar, descobrindo novos lugares, novas rotas. Como estava escrito num grande mural no magnífico Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, "E se mais mundo houvera, lá chegara"... chegaram a vários lugares, dentre eles, às terras tupiniquins. Grandes homens, grandes feitos... A Torre de Belém, no mesmo sítio, que guardava a cidade dos inimigos, é um monumento nem tão grande, mas de um significado impressionante, pois ao passarem pela Torre, logo chegavam as naus ao imenso mar oceano, que foi "domado" por homens valentes...
Respirar os ares mais frescos de Sintra foi como acompanhar a família real portuguesa subindo para o palácio no quente verão lusitano. Andar pela ruas tortuosas hoje pavimentadas com cimento me fez imaginar as pessoas, os coches, os cavalos andando pelas ruas batidas de terra ou pavimentadas por pedras irregulares. Pena que um incêndio no parque não nos possibilitou conhecer o Castelo dos Mouros...
Coimbra, ah Coimbra!! Subir as suas ladeiras para, no cume da colina, conhecer de perto a Universidade mais antiga de Portugal foi uma sensação indescritível. Um novo amigo foi feito, destes que os deuses colocam na nossa vida e se encaixam com perfeição. Valeu Mateus pela acolhida mais do que carinhosa; um maringaense que já é quase um conimbricense e, por isso, pode nos apresentar a cidade de forma muito mais serena e, ao mesmo tempo, empolgante. D. Dinis, D. João III, reis de Portugal, cujas simples estátuas parece que sussuravam ao meu ouvido... E a Portugal dos Pequenitos? Uma das coisas mais belas que vi; um sentido de preservação do passado de forma alegre, quase que infantil, mas que faz dos visitantes, a maioria de portuguesinhos, integrantes da história que sempre é viva...
E as pessoas? Tive o prazer de conversar com muitas delas, tanto em Lisboa, como em Sintra e Coimbra, pessoas do povo e, com exceções que somente confirmaram a regra, são atenciosas, cultas (jovens e velhos) e que gostam muito de nós brasileiros. Já fazia muito sentido antes, mas agora, depois de visitar Portugal, faz um sentido muito mais especial as palavras de um dos maiores lusitanos, Fernando Pessoa:
Uma das primeira imagens foi a do Rio Tejo, tão importante para nós brasileiros como a costa baiana, pois se na segunda os portugueses aqui chegaram pela primeira vez, do primeiro eles partiram. Tentei imaginar as naus e caravelas lusitanas zarpando do Tejo para aventura por terras d'além mar, descobrindo novos lugares, novas rotas. Como estava escrito num grande mural no magnífico Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, "E se mais mundo houvera, lá chegara"... chegaram a vários lugares, dentre eles, às terras tupiniquins. Grandes homens, grandes feitos... A Torre de Belém, no mesmo sítio, que guardava a cidade dos inimigos, é um monumento nem tão grande, mas de um significado impressionante, pois ao passarem pela Torre, logo chegavam as naus ao imenso mar oceano, que foi "domado" por homens valentes...
Respirar os ares mais frescos de Sintra foi como acompanhar a família real portuguesa subindo para o palácio no quente verão lusitano. Andar pela ruas tortuosas hoje pavimentadas com cimento me fez imaginar as pessoas, os coches, os cavalos andando pelas ruas batidas de terra ou pavimentadas por pedras irregulares. Pena que um incêndio no parque não nos possibilitou conhecer o Castelo dos Mouros...
Coimbra, ah Coimbra!! Subir as suas ladeiras para, no cume da colina, conhecer de perto a Universidade mais antiga de Portugal foi uma sensação indescritível. Um novo amigo foi feito, destes que os deuses colocam na nossa vida e se encaixam com perfeição. Valeu Mateus pela acolhida mais do que carinhosa; um maringaense que já é quase um conimbricense e, por isso, pode nos apresentar a cidade de forma muito mais serena e, ao mesmo tempo, empolgante. D. Dinis, D. João III, reis de Portugal, cujas simples estátuas parece que sussuravam ao meu ouvido... E a Portugal dos Pequenitos? Uma das coisas mais belas que vi; um sentido de preservação do passado de forma alegre, quase que infantil, mas que faz dos visitantes, a maioria de portuguesinhos, integrantes da história que sempre é viva...
E as pessoas? Tive o prazer de conversar com muitas delas, tanto em Lisboa, como em Sintra e Coimbra, pessoas do povo e, com exceções que somente confirmaram a regra, são atenciosas, cultas (jovens e velhos) e que gostam muito de nós brasileiros. Já fazia muito sentido antes, mas agora, depois de visitar Portugal, faz um sentido muito mais especial as palavras de um dos maiores lusitanos, Fernando Pessoa:
"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"
sábado, 7 de julho de 2012
Eu não acredito
Eu não acredito em:
rápidas conversões religiosas e políticas,
pessoas sempre sorridentes,
humildade excessiva,
arrogância em pessoas jovens,
luto sem dor e tempo,
(como disse Caetano) em que não bebe.
Pois,
conversões rápidas e ardorosoas podem representar que o que se acreditava até então era, de fato, muito superficial;
quem sorri o tempo todo é por engano, por alienação, ou por desespero;
quem se diz humilde está pedindo louros, os quais, são incompatíveis com a humildade;
quem acha que sabe tudo quando se é, ainda, um adulto jovem, pode estar escondendo medos e ignorância;
a superação e aceitação só vem com o tempo, depois da indignação e da dor;
quem não bebe não se solta e se aproveita da língua solta de quem bebe...
sábado, 30 de junho de 2012
O professor, Santo Agostinho e a filosofia
Há alguns anos atrás, preparando aula sobre a Cidade de Deus de Santo Agostinho para meus alunos do curso de Pedagogia, estabeleci uma relação que, penso, é original; mas, mesmo não sendo, creio que é bem instigante. Trata-se da relação que fiz entre o papel do professor e, por sua vez, a relação que Agostinho faz da Trindade cristã com as partes da Filosofia em Platão. Explicando...
Platão estabelece que a filosofia tem três partes: física, lógica e ética. A primeira parte diz respeito ao conhecimento do bem, ou seja, à investigação do mundo verdadeiro, que, para ele, é o mundo inteligível, no plano das idéias, e não o mundo sensível, da concretude cotidiana. A segunda parte deriva da primeira, ou seja, o filósofo deve, depois de conhecer o bem, transmitir, ensinar sobre ele para os homens comuns que não têm condições de conhecê-lo por si mesmos. A terceira parte é a vivência coletiva de acordo com o bem, é a estruturação de uma sociedade justa para todos, pois a justiça é atributo do bem. As três partes compõem um todo, ou seja, para Platão, filosofar requer conhecer, transmitir/ensinar e viver.
Santo Agostinho, quando apresenta o pensamento do filósofo grego, num esforço de estabelecer afinidades entre a filosofia platônica e o cristianismo, estabelece uma relação entre as partes da filosofia com a trindade cristã. A física se relaciona com a primeira pessoa da trindade, Deus, à medida em que o conhecimento de todas as coisas provém dele e, portanto, conhecer o bem é conhecer o divino. Cristo se relaciona com a parte lógica da filosofia, no sentido de que Deus enviou seu filho aos homens para renovar a aliança e transmitir para os homens as coisas acerca do criador (como está no evangelho de João: "E o Verbo se fez carne"). O Espírito Santo se relaciona com a ética à medida que é ele que inspira os homens a viver de acordo com os desígnios divinos. A trindade, assim como a filosofia, deve ser entendida como três feições de um mesmo rosto, como três momentos de um mesmo ser.
A relação que eu faço disso tudo com o papel do professor não tem a ver com uma visão religiosa acerca do seu afazer, mas com as características que o professor deve ter para exercer bem sua profissão. Em primeiro lugar o professor deve conhecer o assunto que ele vai trabalhar em sala de aula, pois não se consegue ensinar o que não se sabe; o professor deve saber transmitir, comunicar o conhecimento de forma clara para o aluno, ou seja, ele deve ter didática e, especialmente, paciência para ensinar. Enfim, o professor deve, no que depende dele, criar um clima favorável para o processo de ensino-aprendizagem se realize da melhor maneira possível; o professor que é arrogante, autoritário, populista, mais prejudica do que contribui com a formação de seu aluno.
Penso que estas três qualidades juntas é que forjam um bom professor. Tive a oportunidade a sorte de ter tido vários professores assim, e a eles sempre rendo meus silenciosos, mas genuínos, agradecimentos. Eles serão, sempre, minha inspiração!!!
domingo, 24 de junho de 2012
(segunda parte) Complexidade
Continuando a reflexão anterior, gostaria agora de referir-me à complexidade no sentido social e histórico. No post passado, em resumo, eu afirmei que o ser humano é complexo, e é assim que ele deve enxergar a si mesmo e aos outros. Penso que, como consequência lógica, a sociedade e a história devem ser analisadas e avaliadas, também, em suas complexidades.
Efetivamente, as instituições sociais estão longe de serem simples. A política, a escola e a família, apenas para referir-me a algumas das mais importantes, têm uma complexidade interna que não comporta definições acabadas e tranquilas. Em política, por exemplo, como dizia um político, a água sobe a cachoeira..., ou seja, querer uma linearidade no jogo e nos arranjos políticos é se perder em uma pureza que não leva em conta a dinamicidade do processo e as variadas estratégias utilizadas na luta pelo poder. Pode-se criticar alguns conchavos, mas achar, de forma pueril, que a política não pode compreender novas alianças com velhos inimigos é ser, no mínimo, ingênuo. No que diz respeito à escola e à família acontece o mesmo, pois é muito comum minimizar a complexidade das relações inerentes a elas e, com isso, propor resoluções dos problemas que passam, simplesmente, pela mudança na forma dos comportamentos (do marido, da mulher, dos filhos, dos estudantes, dos professores), estabelecendo papeis que deveriam ser naturais. Tanto a família como a escola são instituições que são determinadas para além daquilo que lhes são específicos e, por isso, simplificar as análises e resoluções de possíveis problemas acaba por dar, como diziam os antigos, "com os burros na água", ou seja, respostas ingênuas para análises simplórias.
No que diz respeito à história, é muito comum professores, pesquisadores, estudantes etc., analisar a história a partir de conceitos generalizadores, tais como Idade Média, Humanismo, Renascimento, Mercantilismo, Iluminismo, dentre inúmeros outros. Tais conceitos são sempre construídos posteriormente para identificar determinadas características do passado. No entanto, corre-se o risco de, ao usar permissivamente os conceitos, eles acabam virando rótulos nos quais adapta-se e resume-se a realidade, correndo o risco de fazer uma espécie de radiografia do passado, de se congelar a história, simplificando as relações humanas individuais e sociais, retirando, portanto, toda a dinamicidade própria de qualquer sociedade do passado. O ser humano individual e em sociedade é sempre complexo e, por consequência, o passado também é complexo, dinâmico, contraditório e, se não se estiver atento a isso, corre-se um sério risco de retirar do passado o que lhe é mais rico: os seres humanos de carne, osso, sangue e alma que construíram suas vidas com a intensidade que lhes era inerente.
A consciência de que as sociedades, atual e do passado, são coisas simples é gerada, em minha opinião, por uma visão religiosa-maniqueísta do ser humano e da realidade. A atitude mais simplificadora é aquela que julga as pessoas, instituições e outras coisas como boas ou más e, portanto, a resolução dos problemas também passa pela solução maniqueísta de condenar os maus e enaltecer o bons. Bondade e maldade são tão relativos quanto a própria vida; bom e mau são tão não-lineares como o é a própria história...
domingo, 17 de junho de 2012
Complexidade
Acho que uma das falácias que repetimos e uma das armadilhas que caimos constantemente é de que a "vida é simples, e somos nós que a complicamos"... Falácia por ser um raciocínio enganoso e armadilha por ser algo que parece uma coisa mas é outra, um engodo. A vida, decididamente é complexa, muito complexa. O ser humano não é simples, pois, parafraseando o velho Marx, ele é uma síntese de múltiplas determinações, algumas das quais se têm consciência e outras (muitas vezes as mais importantes) encontram-se no inconsciente ou subconsciente; aliás, a própria existência real desses dois níveis já é uma prova da complexidade humana.
Como somos seres que, normalmente, queremos nos preservar e viver da forma mais confortável possível, afastando temores, sustos, imprevisibilidades etc, temos uma tendência a reduzir as coisas a uma simplicidade aceitável, previsível, linear, por isso que são poucos, por exemplo, os que aceitam entrar em projetos realmente desafiadores, que exigem coragem, criatividade, persistência e tomada de decisões por vezes impopulares. A segurança que muitos buscam de forma arrefecida tende a camuflar as contradições inerentes à vida, por isso que a auto-consciência muitas vezes é um inferno, especialmente quando preferimos achar que, no máximo, os outros é que são nosso inferno...
Uma das máximas mais antigas que se têm conhecimento é aquela atribuída a Sócrates (mas que fazia parte da cultura grega) de que a verdadeira sabedoria deve partir do auto-conhecimento ("conhece-te a ti mesmo") e, então, do conhecimento dos outros ("decifra-me ou te devoro", é o que a Esfinge falava àqueles que queriam entrar em Tebas, no mito de Édipo ). Como não é tarefa fácil, pois senão não estariam colocados como fundamentais para a vida, tais pensamentos gregos revelam que as pessoas são seres complexos que dificilmente cabem em rótulos simples, como estamos muito acostumados a fazer tanto conosco mesmos quanto para com os outros. É muito mais fácil definir as pessoas e a nós mesmos do que empreender um esforço para adentrar muitas vezes em terreno perigoso que é o nosso interior e o das outras pessoas. Fazer isso sem a mediação do dinheiro, do poder, da submissão, da chantagem, do comodismo e, especialmente, daquilo que as pessoas chamam de amor e paixão, aí sim é que o caminho é muito mais difícil.
Se quisermos de fato nos conhecer é preciso, em minha opinião, partir do princípio de que somos seres complexos, que a vida é complexa e, que, portanto, as pessoas ao nosso redor também são complexas. É mais difícil, muito mais complicado, muito mais exigente, mas se não for assim, corremos o risco de viver uma vida auto-alienada e, portanto, longe de ser feliz!!!!
Como somos seres que, normalmente, queremos nos preservar e viver da forma mais confortável possível, afastando temores, sustos, imprevisibilidades etc, temos uma tendência a reduzir as coisas a uma simplicidade aceitável, previsível, linear, por isso que são poucos, por exemplo, os que aceitam entrar em projetos realmente desafiadores, que exigem coragem, criatividade, persistência e tomada de decisões por vezes impopulares. A segurança que muitos buscam de forma arrefecida tende a camuflar as contradições inerentes à vida, por isso que a auto-consciência muitas vezes é um inferno, especialmente quando preferimos achar que, no máximo, os outros é que são nosso inferno...
Uma das máximas mais antigas que se têm conhecimento é aquela atribuída a Sócrates (mas que fazia parte da cultura grega) de que a verdadeira sabedoria deve partir do auto-conhecimento ("conhece-te a ti mesmo") e, então, do conhecimento dos outros ("decifra-me ou te devoro", é o que a Esfinge falava àqueles que queriam entrar em Tebas, no mito de Édipo ). Como não é tarefa fácil, pois senão não estariam colocados como fundamentais para a vida, tais pensamentos gregos revelam que as pessoas são seres complexos que dificilmente cabem em rótulos simples, como estamos muito acostumados a fazer tanto conosco mesmos quanto para com os outros. É muito mais fácil definir as pessoas e a nós mesmos do que empreender um esforço para adentrar muitas vezes em terreno perigoso que é o nosso interior e o das outras pessoas. Fazer isso sem a mediação do dinheiro, do poder, da submissão, da chantagem, do comodismo e, especialmente, daquilo que as pessoas chamam de amor e paixão, aí sim é que o caminho é muito mais difícil.
Se quisermos de fato nos conhecer é preciso, em minha opinião, partir do princípio de que somos seres complexos, que a vida é complexa e, que, portanto, as pessoas ao nosso redor também são complexas. É mais difícil, muito mais complicado, muito mais exigente, mas se não for assim, corremos o risco de viver uma vida auto-alienada e, portanto, longe de ser feliz!!!!
sábado, 9 de junho de 2012
Crítica e democracia
Escrevo isto pelo incômodo que sinto com as críticas postadas aos meus post, especialmente àqueles que dizem respeito mais às relações pessoais do que institucionais. Mas, o incômodo não é pela crítica em si, pois aprendi a lidar com elas e as tenho como algo essencial na vida; o contraponto é sempre bem vindo!! Mas, me pergunto porque as críticas vêm como anônimas? Qual o problema em revelar o nome do crítico? Qual o receio? Sinceramente, não consigo entender...
Sempre soube que ao expor minhas idéias num blog público corria o risco das críticas, de ser taxado como infantil, superficial etc. Mas, continuo achando que, carecendo de muita qualidade ainda, posso contribuir, sim, para pensar sobre a realidade que vivemos. Os meus críticos podem me acusar de tudo, menos de falta de coragem de expor a crise, procurando fugir das receitas de auto-ajuda tão comuns nos dias de hoje. Será que não está faltando coragem aos meus críticos para se exporem também???
PS: apenas para lembrar porque me preocupo com temas como solidão humana, luto, dor, amor-próprio, poder, submissão etc, um estudo da Organização Mundial de Saúde aponta que nos próximos 10 anos, as doenças psíquicas se tornarão epidêmicas e, quando se fala nisso, impossível não se incomodar...
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Solidão e Amor-próprio
Ando refletindo muito sobre a solidão humana que, para mim, é uma das marcas da nossa sociedade. Muito provavelmente inspirado em autores que trabalhei ou venho trabalhando em minhas aulas (Heráclito, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Lucrécio....), fico tentando aprender como se olha a alma humana para, assim, poder observar a sociedade da qual faço parte e elaborar argumentos para expressar meu ponto de vista. Penso que a solidão é uma espécie de resultado, como um ponto de chegada, e não atributo da personalidade, com uma espécie de ponto de partida. Dos vários ângulos que se pode constatar a solidão, um deles, acho, é do do amor-próprio.
Vou usar um exemplo que, creio, é muito comum: o fim de um relacionamento. Porque a felicidade da pessoa amada geralmente é tão ofensiva quando ela não está mais perto? Porque não é possível admitir que a pessoa amada pode ser feliz com outra pessoa? Porque se espera que, no fundo, a infelicidade de uma seja o estado de alma da outra pessoa também? Sinceramente, acho que isso não tem nada a ver com o amor que se quer da outra pessoa ou mesmo do amor que se diz sentir, por mais que isso possa parecer paradoxal. Acho que, no fundo, tem a ver com uma espécie de amor-próprio. Li num livro um pensamento atribuído a Nietzsche, de que todo amor é antes de tudo amor-próprio. Por isso, a pessoa abandonada se pergunta sempre: "como aquela(e) infeliz pode amar outra pessoa que não eu?" "Como, e em que, a outra pessoa pode ser melhor que eu?" "Como a(o) desgraçada(o) pode se entregar para outra pessoa da mesma forma que se entregava a mim?" Os sentimentos que torturam, que tiram o sono e a vontade de fazer as coisas, estes sentimentos atingem em cheio o ego, nocauteiam o amor-próprio, fazem a pessoa se sentir a pior do mundo, pois, ela julga que foi rejeitada...
Não é impressionante isso? Não é impressionante como funcionam as coisas lá no fundo de nosso sub-consciente? Amor-próprio acaba tendo a ver com propriedade das coisas e das pessoas, com uma constante (e disfarçada, é claro) necessidade de ser idolatrado a todo momento. E, para piorar, vou mais fundo nesta reflexão: apesar disso tudo fazer parte do humano que existe em nós, esta parte da nossa humanidade pode revelar-nos um ser fraco, mal resolvido emocionalmente, dependente dos outros e das situações, arrogando-nos como se as pessoas amadas fossem nossa propriedade. Por que o amor que dedica-se a um amigo(a) é diferente? Talvez porque amar um(a) amigo(a) é saber que ele(a) e você estarão sempre juntos, mesmo que separados, sempre cúmplices, mesmo que distantes, sempre prontos para ajudar sem julgar.
Mas, então, porque a outra forma de amor, o amor-paixão, para vivenciá-lo a liberdade tem que ser sacrificada em nome do amor-próprio? Eu acho que a frase do Nietzsche refere-se ao amor pequeno-burguês, ao amor pobre, ao amor que empobrece: não podemos querer amar ao outro somente na exata medida em que este amor representa a escravidão do outro às nossas correntes; querer que o outro nos ame para reforçar nosso amor-próprio é, na verdade, não ter, de partida, amor-próprio; é querer que o outro preencha um vazio, e só isso. Confundimos muito os amores. A dor de um amor que se foi é doída, mas amores podem acabar, ainda mais em certas circunstâncias. Amores acabam mas não morrem, se realmente foram verdadeiros. Amar vale a pena, mas saber amar vale muito mais!!
Voltando ao início, cultivar o verdadeiro amor-próprio, o que é necessário para o controle da vida, é cultivar a liberdade. Deixar levar-se pelo egoísmo, querer submeter o outro e não conseguir, é aumentar o sentimento de abandono e de solidão. E, como consequência, para evitar a mágoa afunda-se numa vida solitária, compensada por relações superficiais e desiguais...
Vou usar um exemplo que, creio, é muito comum: o fim de um relacionamento. Porque a felicidade da pessoa amada geralmente é tão ofensiva quando ela não está mais perto? Porque não é possível admitir que a pessoa amada pode ser feliz com outra pessoa? Porque se espera que, no fundo, a infelicidade de uma seja o estado de alma da outra pessoa também? Sinceramente, acho que isso não tem nada a ver com o amor que se quer da outra pessoa ou mesmo do amor que se diz sentir, por mais que isso possa parecer paradoxal. Acho que, no fundo, tem a ver com uma espécie de amor-próprio. Li num livro um pensamento atribuído a Nietzsche, de que todo amor é antes de tudo amor-próprio. Por isso, a pessoa abandonada se pergunta sempre: "como aquela(e) infeliz pode amar outra pessoa que não eu?" "Como, e em que, a outra pessoa pode ser melhor que eu?" "Como a(o) desgraçada(o) pode se entregar para outra pessoa da mesma forma que se entregava a mim?" Os sentimentos que torturam, que tiram o sono e a vontade de fazer as coisas, estes sentimentos atingem em cheio o ego, nocauteiam o amor-próprio, fazem a pessoa se sentir a pior do mundo, pois, ela julga que foi rejeitada...
Não é impressionante isso? Não é impressionante como funcionam as coisas lá no fundo de nosso sub-consciente? Amor-próprio acaba tendo a ver com propriedade das coisas e das pessoas, com uma constante (e disfarçada, é claro) necessidade de ser idolatrado a todo momento. E, para piorar, vou mais fundo nesta reflexão: apesar disso tudo fazer parte do humano que existe em nós, esta parte da nossa humanidade pode revelar-nos um ser fraco, mal resolvido emocionalmente, dependente dos outros e das situações, arrogando-nos como se as pessoas amadas fossem nossa propriedade. Por que o amor que dedica-se a um amigo(a) é diferente? Talvez porque amar um(a) amigo(a) é saber que ele(a) e você estarão sempre juntos, mesmo que separados, sempre cúmplices, mesmo que distantes, sempre prontos para ajudar sem julgar.
Mas, então, porque a outra forma de amor, o amor-paixão, para vivenciá-lo a liberdade tem que ser sacrificada em nome do amor-próprio? Eu acho que a frase do Nietzsche refere-se ao amor pequeno-burguês, ao amor pobre, ao amor que empobrece: não podemos querer amar ao outro somente na exata medida em que este amor representa a escravidão do outro às nossas correntes; querer que o outro nos ame para reforçar nosso amor-próprio é, na verdade, não ter, de partida, amor-próprio; é querer que o outro preencha um vazio, e só isso. Confundimos muito os amores. A dor de um amor que se foi é doída, mas amores podem acabar, ainda mais em certas circunstâncias. Amores acabam mas não morrem, se realmente foram verdadeiros. Amar vale a pena, mas saber amar vale muito mais!!
Voltando ao início, cultivar o verdadeiro amor-próprio, o que é necessário para o controle da vida, é cultivar a liberdade. Deixar levar-se pelo egoísmo, querer submeter o outro e não conseguir, é aumentar o sentimento de abandono e de solidão. E, como consequência, para evitar a mágoa afunda-se numa vida solitária, compensada por relações superficiais e desiguais...
domingo, 20 de maio de 2012
Ser e não ser
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração." (Drummond)
Confesso que:
Não sei rimar,
e, quando tento, pobres as rimas serão sempre
Não sou poeta,
e, quando, timidamente, tento, só o confirma
Não sou escritor,
a preguiça me domina e a grandeza dos que leio me intimida
Não sou artista,
minha formação, meio escolástica e meio cartesiana, me limita.
Sou, sim,
alguém que quer ser um livre pensador
Sou, sim,
um escrivinhador dos meus pensamentos
Sou, sim,
um professor, por gosto de passar para os outros o pouco que sei
Sou, sim,
alguém que é inconformado com as explicações simples,
num mundo que é tão complexo quanto complexo é o ser humano.
Portanto, não sou crítico daquilo que não pretendo ser
Sou crítico, sim, do que me proponho
Elogios são bem vindos, mas não escrevo para isso
Críticas são bem vindas, aprendi a conviver com elas e as desejar
Se incomodo, melhor
Se contribuo com algo, melhor ainda
Se não for nada disso, continuarei do mesmo jeito.
Eu sou eu,
e mais ninguém!!!!
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