domingo, 28 de outubro de 2012

Política (depois das eleições)


As eleições municipais acabaram hoje. De certa forma a vida volta ao normal, pelo menos a vida de muitas pessoas, porque para algumas o normal da vida é a agitação política. Confesso que os resultados me deixaram um tanto melancólico, pois apesar de nunca ter me filiado, a imensa maioria dos meus votos até hoje, inclusive alguns dos primeiros, foram para candidatos do PT. E, apesar da vitória marcante do Fernando Haddad (o qual, para mim, deveria ser o próximo candidato a presidente da República pelo que fez no Ministério da Educação), aqui no Paraná a única vitória a ser comemorada é de um ex-tucano... Mas, tento manter uma certa distância emocional para tentar refletir de forma mais isenta.

Uma primeira coisa que gostaria de anotar é que as campanhas da televisão mostraram uma certa homogeneidade nas propostas dos candidatos, independente do partido a que pertença. Todos prometeram que vão resolver os problemas da saúde, da educação, do trânsito, das drogas, do lixo etc. E muitas das propostas eram praticamente iguais, diferenciando-se pelas siglas que os candidatos deram aos seus projetos. Como não havia diferenças substanciais nas propostas, o convencimento dos eleitores passou pela confiança que supostamente passavam como administradores capazes, honestos e sensíveis na condução da coisa pública. E nisso também acabou por resultar numa certa equalização. O que restou: o peso dos apoiadores, a experiência pessoal, o visual... Ou seja, estamos em uma época em que parece não haver mais ideologia, importando, sim, chegar ao poder, mesmo que, para isso, a campanha esconda certos símbolos que marcam uma determinada ideologia. Esquerda e direita parecem não mais importar para o público, até porque,  a ideologia parece pouco importar para os dirigentes das campanhas, para os marqueteiros de plantão. Quando os partidos não passam de siglas de nomes bonitos o personalismo se torna a marca da campanha.

Impossível não lembrar da democracia eleitoral dos Estados Unidos, o qual, sempre insisto, tem muito a nos ensinar. Voto facultativo; empresas, inclusive de comunicação, escolhendo e defendendo os seus candidatos; mas, o que é mais significativo, dois grandes partidos com ideologias claras, opostas, cujos candidatos têm dever com seus respectivos programas. Creio que é isso que falta, ainda, no Brasil. Acho mesmo que aqui o eleitor é tutelado pelo Estado, e, portanto, a falta de uma maturidade eleitoral gera campanhas muito mais personalizadas do que ideológicas. Claro que as pessoas são importantes, claro que um candidato tem que ter carisma, competência e seriedade, mas tornar essas qualidades independentes de uma ideologia é, na minha visão, problemático.

Finalmente, falando ainda das campanhas, é impressionante como quanto mais quente for a campanha, mais um certo maniqueísmo toma conta dos militantes e simpatizantes das candidaturas. Discussões, convencimentos, argumentos são normais, mas o problema são as agressões, pois algumas delas acabam se estendendo para depois da eleição. As agressões, as intolerâncias tem como base o princípio de que um está a favor do bem e o outro está com o mal; um faz política com o coração e o outro com o bolso, e por aí vai... Penso que a política deve ser feita com o coração sim, mas não com o fígado, afinal, como já disse alguém, em política a água sobre a cachoeira....


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Professor Osmar

(Este texto foi feito a pedido da comissão organizadora da Semana da Pedagogia da UEM - 2012 - para homenagear o professor Osmar José Klock, por ocasião de sua aposentadoria)




Quem não se lembra de ter entrado em alguma sala de aula do curso de Pedagogia e sentido um cheiro forte de álcool, ter perguntado, um tanto preocupado, o motivo daquele odor, e ter descoberto que se tratava de uma prova rodada no mimeografo, e isso em plena época das impressoras? Quem não se lembra de algum relato feito em reunião departamental, datilografado em máquina escrever, e isso em um tempo em que o computador já era algo comum em nossas vidas? Sim, estou falando do prof. Osmar José Klock e sua rebeldia contra a massificação da tecnologia. Talvez o mimeografo e a máquina de escrever tenham sido, para ele, duas metáforas de valores que eram cultivados naturalmente pela sociedade e que não deveriam ser perdidos.

Osmar sempre foi muito respeitado pelos alunos e pelos colegas de trabalho, por aquilo que deveria ser absolutamente natural, ou seja, pelo seu compromisso com a ciência e com a universidade pública. Seriedade, pontualidade, camaradagem, solidariedade foram as marcas do profissional Osmar, pois são atributos da pessoa Osmar. Talvez ele seja um dos últimos de uma era do curso de Pedagogia daqueles que o construíram, da Era dos Edificadores... ele se junta ao Balduíno, ao Jean, à Lízia, à Guara, à Zélia, dentre outros tantos; ele se junta a todos aqueles que devem ser sempre homenageados por nós que, em meio a competências, conflitos, objetivos em comum, continuamos seu trabalho.

Um sinal de respeito em muitas culturas é uma pessoa se curvar diante de outra em virtude da competência e do que ela representa. Professor Osmar José Klock, neste momento o que podemos fazer de mais significativo é fazer a nossa reverência a você. Obrigado!!!!


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Fio de Ariadne

Conta o mito que Teseu, príncipe de Atenas, se colocou como voluntário para ir até a ilha de Creta, onde jovens atenienses eram entregues a um terrível ser, metade touro e metade homem, o Minotauro, que morava num imenso e intrincado labirinto, que os devoraria, compondo uma espécie de rito religioso. Ariadne, jovem princesa cretense, filha do rei Minos, se apaixonou por Teseu e lhe entregou uma espada e um novelo de fio para que, depois de matar o Minotauro, o herói pudesse achar a saída do labirinto, desenrolando o novelo e achando o caminho de volta. E, assim se deu, graças ao fio de Ariadne o herói Teseu conseguiu encontrar a saída depois de acabar com o monstro.

Pois bem, quantas vezes na vida não nos achamos metaforicamente em um labirinto imenso no qual andamos, andamos, passamos pelos mesmos lugares, e não encontramos saída? E, quantas vezes nesse intricado labirinto não encontramos um igualmente metafórico monstro que nos parece terrível e que nos quer devorar, quer tomar conta de nosso corpo e de nossa alma? O Minotauro da lenda é touro da metade para cima e homem da metade para baixo, ou seja, no lugar da razão, do cérebro humano, está o irracional, pronto para devorar aquilo que para ele é incompreensível. Quantas vezes convivemos com labirintos e monstros e temos a sensação de não encontrar saída? E, nesses momentos, como desejamos algo que nos ajude, que nos auxilie a voltar a viver, como queremos, metaforicamente, um Fio de Ariadne para nós, simples mortais que de heróis, que de Teseu, temos tão pouco!!

Alguém sempre pode nos ajudar dando-nos um pouco de si, dos seus conselhos, dos seus ombros, dos seus ouvidos, mas penso que poucos são aqueles que nos podem fornecer o nosso Fio de Ariadne. Amigos; pessoas mais vividas e, portanto, com mais experiência de vida; terapeutas etc., podem ser aqueles que nos devolvem à razão e nos dão coragem para enfrentarmos nossos monstros irracionais e nossas confusões mais íntimas e anímicas. Mas eles não podem e nem devem entrar no nosso Labirinto e enfrentar, por nós, nosso Minotauro, pois se admitirmos isso, estaremos "terceirizando" a resolução dos nossos problemas e, a rigor, não os estaremos resolvendo no nosso íntimo. Certas lutas têm que ser travadas solitariamente, por nós mesmos, sem recorrer a "muletas". Nossas crises, nossos medos, nossas culpas têm que ser resolvidas por nós mesmos, mas, para isso, devemos contar, sempre, com Ariadnes que nos emprestam sua razão, seu senso e, especialmente, sua distância, necessários para nos ajudar a enxergar os contornos e a dimensão dos nossos problemas.

Ariadne deu o estratagema, deu o instrumento, deu o Fio... Mas, quem teve coragem de entrar no Labirinto, do qual ninguém antes havia escapado, quem teve coragem de enfrentar o monstro devorador de carne humana jovem, quem se manteve destemido e calmo suficiente para ir desenrolando o Fio para voltar ao caminho da saída foi Teseu... sem sua coragem não adiantaria o Fio... Temos amigos,  terapeutas e outras pessoas para ajudar, mas somos nós que temos que enfrentar a nós mesmos, enfrentar nosso Labirinto e nosso Minotauro interior. Só assim, a sensação da vitória será plena... até, pelo menos, entrarmos em novas confusões e nos depararmos com novos monstros a serem enfrentados.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sujeira...


A greve dos funcionários da UEM me levou, nos últimos dias, a uma reflexão que apesar de não ser nova, vem bem a calhar: trata-se da limpeza dos espaços públicos da nossa universidade. Não sei ao certo se por herança do trabalho escravo no Brasil ou pela cultura de que o que é público não é de ninguém, mas o fato é que corredores, salas de aula e, especialmente, banheiros da UEM têm muita sujeira. É impressionante o fato de que se entra numa sala de aula limpa e depois de 3 horas e meia ela está suja!!

Fico me perguntando, não hoje, mas há tempos, porque se suja uma sala de aula? Porque se joga papeis no chão, se entra com calçados sujos, se arrastam as carteiras e não as voltam ao lugar? Porque vemos tantos papeis e sujeira nos corredores? Porque vemos pedaços de papel higiênico e água no chão de nossos banheiros? A resposta me parece incrivelmente simples: porque tem alguém que vai limpar depois. Eu não me incomodo de sujar a sala de aula, o corredor e o banheiro porque tem a pessoa da zeladoria que vai limpar; afinal, não é o serviço dela mesmo?? Eu sujo porque tenho uma empregada que limpa. Me pergunto adicionalmente: em casa é a mesma coisa??

Me lembro a primeira vez que andei de metrô em São Paulo e fiquei impressionado com a limpeza nas estações e nos trens (o que ocorre até hoje, diga-se de passagem...) e um colega paulistano me disse que a lógica era manter sempre o local limpo, pois isso acarretava um efeito psicológico nas pessoas de não ser a primeira a sujar. Será que uma lógica dessa não poderia ser aplicada nos espaços públicos? Se conseguíssemos deixá-los sempre limpos e asseados isso não controlaria a pulsão das pessoas em sujar ainda mais o ambiente em que se trabalha e estuda??

Será que podemos confiar em algo assim? Será que ainda resta otimismo suficiente para que as pessoas mudem certos hábitos em prol do coletivo e da preservação do que é público? Será que tais reflexões encontram eco não apenas em concordância com a tese, mas, efetivamente, em colaborar com ambientes mais limpos?

Sinceramente, não sei... (ando meio pessimista ultimamente) só sei que vou tentar fazer minha parte... vou me auto-vigiar , mas poupar meu estômago de cuidar dos outros...


domingo, 26 de agosto de 2012

Pequenas ditaduras na democracia



Bem, sei que vou mexer num vespeiro, que talvez seja incompreendido e receba muitas críticas, mas me sinto com liberdade suficiente para expressar minha opinião. Tem um tipo de postagem no facebook que anda me irritando e preocupando profundamente: "se você é a favor de acabar com o sofrimento dos animais compartilhe", "se você tem orgulho de ter amigos negros compartilhe", "se você tem orgulho de ter amigos homossexuais compartilhe", "se você ama sua mãe e sua família compartilhe"... e coisas que o valha... Fico me perguntando (1) se as pessoas que postam estas coisas estão entendendo que se seu "amigo" do face não partilhar, ele não concorda com aquilo?,  e (2) há uma espécie de tentativa de patrulhamento ideológico daquilo que se pretende ser o pensamento mais avançado?

Acho que reside aí, para mim, o grande problema. O chamado multiculturalismo, na atualidade, criou versões  que pretendem ser as ideologicamente mais revolucionárias, como, por exemplo, a defesa da igualdade de gênero, igualdade de raça, e a mais radical de todas, a concepção de que os animais são iguais (ou superiores!!) aos homens e que, portanto, comer defuntos de animais é uma atitude condenável. Defender tais visões de mundo, tais ideologias, para mim não é problema, e, em muitos casos são socialmente úteis. O problema, acho, é que tais concepções passam a ser a tônica da atualidade, passam a ser o crivo para julgar quem é avançado e quem é conservador, quem deve ser salvo e quem deve ser condenado. Pensar uma sociedade qualitativamente diferente, que supere a atual, não passa mais por uma discussão de classes, de apropriação coletiva de certos meios de produção, mas passa, agora, pela militância ambiental, de gênero e de raça.

O facebook parece ser, em parte, expressão da tônica atual, pois quando se colocam as coisas de maneira que quem não partilha das mesmas opiniões decididamente é tido como conservador, reacionário, e se pede ainda para quem for favorável compartilhar a mensagem, me parece que acaba resultando num verdadeiro e deplorável patrulhamento ideológico. Daí parece que estamos a um pequeno passo de uma ditadura do que se considera a verdade, ditadura do que se considera o bom, pois aquele que discorda está do lado da mentira e do mal. Assim como parece que estamos no tempo da ditadura da felicidade, podemos estar, também, no tempo da ditadura do que se considera multicultural.

Defendo, de forma intransigente, a opinião das pessoas, mesmo que contrárias às minhas. Condeno, igualmente de forma intransigente, qualquer forma de violência real ou simbólica, condeno qualquer forma de buling e qualquer forma de fundamentalismo radical. Tenho amigos gays, tenho amigos negros, mas não se tornaram meus amigos pela sua cor ou pela sua opção sexual, mas sim pelas pessoas humanamente atraentes que são...

Ah, (1)  amo minha mãe e minha família, mas não vejo necessidade de, por isso, tornar público algo que, para mim, já é público...
Ah, (2) não sou e nem pretendo ser vegetariano e, por favor, não me sinto menos humano por isso...


sábado, 18 de agosto de 2012

Bolívia

Acho que passei pela experiência de um verdadeiro choque cultural em menos de um mês: depois de conhecer Portugal, fui para a Bolívia, no interior, na região dos povos chiquitanos. Não vou mentir aqui afirmando, demagogicamente, que as experiências foram as mesmas e os sentimentos iguais. Por vários motivos, pessoais e de trabalho, Portugal me proporcionou muito mais emoções positivas do que a Bolívia, no entanto, não é possível viajar para lá sem escrever sobre esta verdadeira aventura.


Eu e o Nando (e eu acho que a grande maioria dos participantes do congresso) fomos meio que precavidos de que coisas estranhas poderiam acontecer, viajamos com a consciência de que poderíamos provar coisas inusitadas e, portanto, acabamos por preparar nossos espíritos para encarar tudo da forma mais normal e esperada possível. E acho que conseguimos, tanto é que somente depois da viagem é que apresentei alguns problemas de saúde, talvez relacionados à minha estadia por aquelas paragens.

A impressão que se tem é que se trata de um volta ao passado num ambiente de filme mexicano antigo: estradas e ruas sem asfalto; comidas, incluindo carnes, expostas ao tempo nos mercados; baixas condições de saneamento básico; motos circulando com uma, duas ou mais pessoas, inclusive crianças e bebês, todas sem capacete; ônibus (todos brasileiros aliás) sem banheiro e sem ar-condicionado e em condições mecânicas sofríveis, que levou a uma parada não solicitada de três horas à beira de uma estrada poeirenta; desorganização no evento com os CD dos anais e os certificados de apresentação de trabalhos; enfim, coisas para as quais, como já informei, estava com o espírito preparado e, portanto,  encarei da melhor forma possível, sem stress.

Por outro lado, seria muito injusto com os bolivianos que nos receberam tão bem destacar somente o exótico da viagem. As pessoas são muito amáveis e bonitas; a cultura chiquitana é preservada e os descendentes das etnias são incentivados a cultivar a arte da música, do canto e do teatro; as igrejas das antigas missões jesuíticas muito bem preservadas, com altares barrocos magníficos; uma apresentação de música barroca de tirar o fôlego;  apesar dos motociclistas e passageiros sem capacete, não vi nenhum acidente; hoteis com uma boa infraestrutura; comida em abundância e variada. Enfim, coisas boas que compensaram os previsíveis imprevistos.

Valeu a pena conhecer o interior da Bolívia. Muita coisa naquele país continua desconhecida, especialmente os lugares do altiplano (La Paz, Lago Chichicada, Salar de Uyuni etc.), mas estes lugares são, por excelência, turísticos, o que ainda não é o caso da região de Chiquitos, cujo único turismo é o cultural...


domingo, 29 de julho de 2012

Autismos


Segundo a definição do site Ciências Médicas, o autismo é definido como  "uma perturbação psicológica grave caracterizada pelo facto de toda a vivência do indivíduo estar centrada nele mesmo, apresentando uma indiferença aparente para com a realidade que o rodeia, observando-se com maior frequência em crianças com idade inferior a três anos de idade." Mas, não é sobre o autismo como doença que quero tratar aqui, mas do autismo que chamo de simbólico e, portanto, de vários tipos de autismos. Dentre eles quero destacar o político, o intelectual e o emocional.

O autista no sentido político é aquela pessoa que tem algum cargo ou função de relevância e que não tem poder de autoavaliação de sua atuação. As coisas podem estar desmoronando ao seu redor, a insatisfação daqueles que o rodeiam é crescente, as críticas à sua gestão são generalizadas, mas ele consegue dar ouvidos apenas para os que só querem saber de "puxar o saco", ou aqueles que o elogiam por meras circunstâncias políticas. O político deste tipo realmente só consegue acreditar nos elogios e, portanto, vive uma realidade só sua, tem uma avaliação da situação que é só sua e que, portanto, não interage com a realidade caótica que está ao seu redor. Este tipo de político, arrisco a afirmar, é o que há de mais nefasto para qualquer instituição.

O autismo intelectual é, creio, uma das propriedades do arrogante intelectual. Este tipo de pessoa só se interessa, na verdade, por aquelas coisas que a ele dizem respeito e, especialmente, pelos elogios que lhe fazem. As críticas são avaliadas como coisas de gente inferior que não está no mesmo patamar dele, aliás, a rigor, ninguém está no seu patamar e, por isso, também cria um mundo só para si, em que ele consegue interagir de igual para igual apenas com seu próprio ego. Um profissional da educação com tais características é, arrisco novamente a afirmar, algo tremendamente pernicioso.

E o autismo emocional é característico da pessoa que não consegue perceber que a relação por ela vivida com outra pessoa só faz sentido para ela mesma, não importando, de fato, se a outra pessoa está presente de corpo e alma na relação. Para o autista emocional o seu amor é suficiente para os dois e, portanto, a relação deve continuar, a qualquer custo. Há, nesta forma de autismo, uma relação de poder e de submissão ao mesmo tempo, por mais contraditório que possa parecer. A crise para o autista emocional é sempre superável pois, de fato, ela nem existe, pois a realidade que importa é somente aquela criada pela pessoa.

O autismo, como fenômeno biológico, é uma doença visível, que requer enorme cuidado e atenção por parte de pais e de profissionais. Já os autismos simbólicos são mais difíceis de se detectar e, portanto, muito mais complicados de se tratar, pois eles vêm travestidos, em muitos casos, como "atenção", "competência", "amor" e "dedicação". Engodos difíceis de enfrentar...




domingo, 22 de julho de 2012

HOSTEL

(Este post é dedicado à Ariele, à Luciana, à Raquel e ao Gilmar, companheiros maravilhosos de viagem...)


Quando planejávamos nossa viagem para Portugal eu deixei por conta dos "meninos" a escolha e reserva dos hotéis em Lisboa e Coimbra. Me comunicaram, depois, que em Lisboa ficaríamos em hostels (para quem não sabe, é o nome moderno para os antigos albergues da juventude). Confesso, só agora, que fiquei um tanto preocupado... Me imaginei num quarto com mais quatro ou cinco pessoas, usando banheiro coletivo, com as manias que cultivei ao longo de 45 anos de vida, com meus hábitos pontuais, e confesso que fiquei quase apavorado. Mas, como havia me comprometido com eles, resolvi entrar no clima e, partilho agora, foi muito legal a experiência.

É preciso saber viver em coletividade, cujas condições são favoráveis muito mais aos jovens. Aliás, me senti sempre o tiosão da parada nos hostels, pois a média de idade me pareceu em torno dos vinte anos. Mas, como já afirmei, foi uma experiência muito interessante. Alguns requisitos se tornaram necessários: cumplicidade, respeito, nenhuma vaidade, mínimo de organização, dentre outros. Não sei ao certo se o fato de ficarmos juntos nos hostels favoreceu a nossa convivência ou se a nossa convivência fraternal favoreceu o clima legal nos hostels, mas o fato é que não tivemos um problema sequer, e olha que estávamos em cinco, o que, por si só, já é digno de nota.

O fato de ficarmos juntos quase o tempo todo, com exceção feita ao hotel (tenebroso!!) em Coimbra, contribuiu para que ficássemos mais ligados, e, sem dúvida, os hostels contribuíram para isto. O respeito e a dedicação que temos reciprocamente entre nós só fez aumentar e, para além dos elos acadêmicos que nos ligam, o que foi reforçada com liames muito especiais de carinho foi nossa amizade.

Obrigado a vocês, meus alunos, orientandos e, acima de tudo, amigos, por me propiciarem uma experiência que eu, no algo dos meus 46 anos, pensei que não desfrutaria mais. Valeu!!!



quinta-feira, 19 de julho de 2012

Portugal

Emoção. Talvez esta seja a palavra que melhor defina minha viagem para Portugal... Estudo a sociedade lusitana dos séculos XVI, XVII e XVIII desde 2001 e só agora tive a oportunidade de conhecer a Terrinha. De certa forma, foi como se já conhecesse muita coisa pessoalmente, de tanto ler sobre, de tanto ver imagens e de tanto acompanhar a "fala" de importantes atores históricos. Lisboa, Sintra e Coimbra me pareceram tão próximas, tão estranhamente próximas, que parece que eu, na verdade, revi muita coisa, ao invés de ver pela primeira vez...

Uma das primeira imagens foi a do Rio Tejo, tão importante para nós brasileiros como a costa baiana, pois se na segunda os portugueses aqui chegaram pela primeira vez, do primeiro eles partiram. Tentei imaginar as naus e caravelas lusitanas zarpando do Tejo para aventura por terras d'além mar, descobrindo novos lugares, novas rotas. Como estava escrito num grande mural no magnífico Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, "E se mais mundo houvera, lá chegara"... chegaram a vários lugares, dentre eles, às terras tupiniquins. Grandes homens, grandes feitos... A Torre de Belém, no mesmo sítio, que guardava a cidade dos inimigos, é um monumento nem tão grande, mas de um significado impressionante, pois ao passarem pela Torre, logo chegavam as naus ao imenso mar oceano, que foi "domado" por homens valentes...

Respirar os ares mais frescos de Sintra foi como acompanhar a família real portuguesa subindo para o palácio no quente verão lusitano. Andar pela ruas tortuosas hoje pavimentadas com cimento me fez imaginar as pessoas, os coches, os cavalos andando pelas ruas batidas de terra ou pavimentadas por pedras irregulares. Pena que um incêndio no parque não nos possibilitou conhecer o Castelo dos Mouros...

Coimbra, ah Coimbra!! Subir as suas ladeiras para, no cume da colina, conhecer de perto a Universidade mais antiga de Portugal foi uma sensação indescritível. Um novo amigo foi feito, destes que os deuses colocam na nossa vida e se encaixam com perfeição. Valeu Mateus pela acolhida mais do que carinhosa; um maringaense que já é quase um conimbricense e, por isso, pode nos apresentar a cidade de forma muito mais serena e, ao mesmo tempo, empolgante. D. Dinis, D. João III, reis de Portugal, cujas simples estátuas parece que sussuravam ao meu ouvido... E a Portugal dos Pequenitos? Uma das coisas mais belas que vi; um sentido de preservação do passado de forma alegre, quase que infantil, mas que faz dos visitantes, a maioria de portuguesinhos, integrantes da história que sempre é viva...

E as pessoas? Tive o prazer de conversar com muitas delas, tanto em Lisboa, como em Sintra e Coimbra, pessoas do povo e, com exceções que somente confirmaram a regra, são  atenciosas, cultas (jovens e velhos) e que gostam muito de nós brasileiros. Já fazia muito sentido antes, mas agora, depois de visitar Portugal, faz um sentido muito mais especial as palavras de um dos maiores lusitanos, Fernando Pessoa:

"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"





sábado, 7 de julho de 2012

Eu não acredito






Eu não acredito em:
rápidas conversões religiosas e políticas,
pessoas sempre sorridentes,
humildade excessiva,
arrogância em pessoas jovens,
luto sem dor e tempo,
(como disse Caetano) em que não bebe.




Pois,

conversões rápidas e ardorosoas podem representar que o que se acreditava até então era, de fato, muito superficial;

quem sorri o tempo todo é por engano,  por alienação, ou por desespero;

quem se diz humilde está pedindo louros, os quais, são incompatíveis com a humildade;

quem acha que sabe tudo quando se é, ainda, um adulto jovem,  pode estar escondendo medos e ignorância;

a superação e aceitação só vem com o tempo, depois da indignação e da dor;

quem não bebe não se solta e se aproveita da língua solta de quem bebe...



sábado, 30 de junho de 2012

O professor, Santo Agostinho e a filosofia



Há alguns anos atrás, preparando aula sobre a Cidade de Deus de Santo Agostinho para meus alunos do curso de Pedagogia, estabeleci uma relação que, penso, é original; mas, mesmo não sendo, creio que é bem instigante. Trata-se da relação que fiz entre o papel do professor e, por sua vez, a relação que Agostinho faz da Trindade cristã com as partes da Filosofia em Platão. Explicando...


Platão estabelece que a filosofia tem três partes: física, lógica e ética. A primeira parte diz respeito ao conhecimento do bem, ou seja, à investigação do mundo verdadeiro, que, para ele, é o mundo inteligível, no plano das idéias, e não o mundo sensível, da concretude cotidiana. A segunda parte deriva da primeira, ou seja, o filósofo deve, depois de conhecer o bem, transmitir, ensinar sobre ele para os homens comuns que não têm condições de conhecê-lo por si mesmos. A terceira parte é a vivência coletiva de acordo com o bem, é a estruturação de uma sociedade justa para todos, pois a justiça é atributo do bem. As três partes compõem um todo, ou seja, para Platão, filosofar requer conhecer, transmitir/ensinar e viver.

Santo Agostinho, quando apresenta o pensamento do filósofo grego, num esforço de estabelecer afinidades entre a filosofia platônica e o cristianismo, estabelece uma relação entre as partes da filosofia  com a trindade cristã. A física se relaciona com a primeira pessoa da trindade, Deus, à medida em que o conhecimento de todas as coisas provém dele e, portanto, conhecer o bem é conhecer o divino. Cristo se relaciona com a parte lógica da filosofia, no sentido de que Deus enviou seu filho aos homens para renovar a aliança e transmitir para os homens as coisas acerca do criador (como está no evangelho de João: "E o Verbo se fez carne"). O Espírito Santo se relaciona com a ética à medida que é ele que inspira os homens a viver de acordo com os desígnios divinos. A trindade, assim como a filosofia, deve ser entendida como três feições de um mesmo rosto, como três momentos de um mesmo ser.

A relação que eu faço disso tudo com o papel do professor não tem a ver com uma visão religiosa acerca do seu afazer, mas com as características que o professor deve ter para exercer bem sua profissão. Em primeiro lugar o professor deve conhecer o assunto que ele vai trabalhar em sala de aula, pois não se consegue ensinar o que não se sabe; o professor deve saber transmitir, comunicar o conhecimento de forma clara para o aluno, ou seja, ele deve ter didática e, especialmente, paciência para ensinar. Enfim, o professor deve, no que depende dele, criar um clima favorável para o processo de ensino-aprendizagem se realize da melhor maneira possível; o professor que é arrogante, autoritário, populista, mais prejudica do que contribui com a formação de seu aluno.

Penso que estas três qualidades juntas é que forjam um bom professor. Tive a oportunidade a sorte de ter tido vários professores assim, e a eles sempre rendo meus silenciosos, mas genuínos, agradecimentos. Eles serão, sempre, minha inspiração!!!


domingo, 24 de junho de 2012

(segunda parte) Complexidade


Continuando a reflexão anterior, gostaria agora de referir-me à complexidade no sentido social e histórico. No post passado, em resumo, eu afirmei que o ser humano é complexo, e é assim que ele deve enxergar a si mesmo e aos outros. Penso que, como consequência lógica, a sociedade e a história devem ser analisadas e avaliadas, também, em suas complexidades.

Efetivamente, as instituições sociais estão longe de serem simples. A política, a escola e a família, apenas para referir-me a algumas das mais importantes, têm uma complexidade interna que não comporta definições acabadas e tranquilas. Em política, por exemplo, como dizia um político, a água sobe a cachoeira..., ou seja, querer uma linearidade no jogo e nos arranjos políticos é se perder em uma pureza que não leva em conta a dinamicidade do processo e as variadas estratégias utilizadas na luta pelo poder. Pode-se  criticar alguns conchavos, mas achar, de forma  pueril, que a política não pode compreender novas alianças com velhos inimigos é ser, no mínimo, ingênuo. No que diz respeito à escola e à família acontece o mesmo, pois é muito comum minimizar a complexidade das relações inerentes a elas e, com isso, propor resoluções dos problemas que passam, simplesmente, pela mudança na forma dos comportamentos (do marido, da mulher, dos filhos, dos estudantes, dos professores), estabelecendo papeis que deveriam ser naturais. Tanto a família como a escola são instituições que são determinadas para além daquilo que lhes são específicos e, por isso, simplificar as análises e resoluções de possíveis problemas acaba por dar, como diziam os antigos, "com os burros na água", ou seja, respostas ingênuas para análises simplórias.

No que diz respeito à história, é muito comum professores, pesquisadores, estudantes etc., analisar a história a partir de conceitos generalizadores, tais como Idade Média, Humanismo, Renascimento, Mercantilismo, Iluminismo, dentre inúmeros outros. Tais conceitos são sempre construídos posteriormente para identificar determinadas características do passado. No entanto, corre-se o risco de, ao usar permissivamente os conceitos, eles acabam virando rótulos nos quais adapta-se e resume-se a realidade, correndo o risco de fazer uma espécie de radiografia do passado, de se congelar a história, simplificando as relações humanas individuais e sociais, retirando, portanto, toda a dinamicidade própria de qualquer sociedade do passado. O ser humano individual e em sociedade é sempre complexo e, por consequência, o passado também é complexo, dinâmico, contraditório e, se não se estiver atento a isso, corre-se um sério risco de retirar do passado o que lhe é mais rico: os seres humanos de carne, osso, sangue e alma que construíram suas vidas com a intensidade que lhes era inerente.

A consciência de que as sociedades, atual e do passado, são coisas simples é gerada, em minha opinião, por uma visão religiosa-maniqueísta do ser humano e da realidade. A atitude mais simplificadora é aquela que julga as pessoas, instituições e outras coisas como boas ou más e, portanto, a resolução dos problemas também passa pela solução maniqueísta de condenar os maus e enaltecer o bons. Bondade e maldade são tão relativos quanto a própria vida; bom e mau são tão não-lineares como o é a própria história...



domingo, 17 de junho de 2012

Complexidade

Acho que uma das falácias que repetimos e uma das armadilhas que caimos constantemente é de que a "vida é simples, e somos nós que a complicamos"... Falácia por ser um raciocínio enganoso e armadilha por ser algo que parece uma coisa mas é outra, um engodo. A vida, decididamente é complexa, muito complexa. O ser humano não é simples, pois, parafraseando o velho Marx, ele é uma síntese de múltiplas determinações, algumas das quais se têm consciência e outras (muitas vezes as mais importantes) encontram-se no inconsciente ou subconsciente; aliás, a própria existência real desses dois níveis já é uma prova da complexidade humana.

Como somos seres que, normalmente, queremos nos preservar e viver da forma mais confortável possível, afastando temores, sustos, imprevisibilidades etc, temos uma tendência a reduzir as coisas a uma simplicidade aceitável, previsível, linear, por isso que são poucos, por exemplo, os que aceitam entrar em projetos realmente desafiadores, que exigem coragem, criatividade, persistência e tomada de decisões por vezes impopulares. A segurança que muitos buscam de forma arrefecida tende a camuflar as contradições inerentes à vida, por isso que a auto-consciência muitas vezes é um inferno, especialmente quando preferimos achar que, no máximo, os outros é que são nosso inferno...

Uma das máximas mais antigas que se têm conhecimento é aquela atribuída a Sócrates (mas que fazia parte da cultura grega) de que a verdadeira sabedoria deve partir do auto-conhecimento ("conhece-te a ti mesmo") e, então, do conhecimento dos outros ("decifra-me ou te devoro",  é o que a Esfinge falava àqueles que queriam entrar em Tebas, no mito de Édipo ).  Como não é tarefa fácil, pois senão não estariam colocados como fundamentais para a vida, tais pensamentos gregos revelam que as pessoas são seres complexos que dificilmente cabem em rótulos simples, como estamos muito acostumados a fazer tanto conosco mesmos quanto para com os outros. É muito mais fácil definir as pessoas e a nós mesmos do que empreender um esforço para adentrar muitas vezes em terreno perigoso que é o nosso interior e o das outras pessoas. Fazer isso sem a mediação do dinheiro, do poder, da submissão, da chantagem, do comodismo e, especialmente, daquilo que as pessoas chamam de amor e paixão, aí sim é que o caminho é muito mais difícil.

Se quisermos de fato nos conhecer é preciso, em minha opinião, partir do princípio de que somos seres complexos, que a vida é complexa e, que, portanto, as pessoas ao nosso redor também são complexas. É mais difícil, muito mais complicado, muito mais exigente, mas se não for assim, corremos o risco de viver uma vida auto-alienada e, portanto, longe de ser feliz!!!!